domingo, agosto 23, 2009

Caio

"Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa."

quinta-feira, agosto 13, 2009

Correspondência extraviada IX

R.,

Pra te dizer que ando deserta, moço. Das idéias, dos sentidos, dos sonhos. Por isso, o silêncio.

Perdi a conta do tempo. Quantos anos, mesmo? Melhor esquecer. A verdade é que poderiam ser cinquenta, esse gosto amargo há de ficar pra sempre.

Tenho largado pensamentos demais pelos papéis e guardanapos. Nada se encaixa, é fato, mas tu entendes, eu sei que tu entendes.

Essa coisa de te querer mas não te precisar. Te fantasio pra aliviar a loucura que é não te ter por perto. Quase funciona. Tenho as cartas, as poucas, do tempo em que tuas respostas tardavam mas vinham, tenho meus delírios, vinho frisante na geladeira, Charles Mingus, ele, no player (ouço, sem cessar, "há pelo menos 163 anos"). E é tudo o que tenho.

Somos mesmo feitos de eletricidade. Éramos, antes, lâmpadas em corrente contínua (embora a alta voltagem, embora as mudanças de rumo). Agora, eu aqui e tu sabe-se lá onde... luminárias solitárias mas ainda acesas.

Eu sei que há de chegar o dia. Te vejo próximo, cada vez mais. Esperar atormenta. A ansiedade é quase outro ser em mim. Busco calma e já não sei mais onde encontrar. Me desligo, pois. Tento, ao menos. Deixo de sentir os cheiros e os gostos, deixo de escutar poesia e música. Tenho perdido tantas coisas da vida, meu bem, por culpa dessa ausência tua, violenta e cruel e com a qual eu jamais consenti, nem mesmo nos meus momentos de profunda ira - a verdade, é que a minha ira, meus olhos vermelhos, o sangue me latejando forte nas veias, tudo isso também vem da tua ausência. Dá pra resumir dizendo que todas as coisas vêm, ou deixam de vir, dessa tua maldita ausência. Mas o que atormenta mesmo é a consciência desse sentimento sem sentido, é não conseguir entender porque, como ou quando. Essa minha falta de memória de nós que me atira imagens de coisas que nunca existiram. Dói, meu bem, dói.

Tu, que antes era a história que eu mais gostava de contar, te tornastes uma lenda. Não falo mais sobre ti porque julgam-me louca, é bem verdade. Eu mesma questiono tua existência, vez ou outra, especialmente quando da melancolia. Quando penso em tudo que poderia ter sido e não foi digo a mim mesma que não, não poderia ter sido e nunca será, porque tu és apenas uma lenda, um fruto da minha esquisofrenia não diagnosticada, a mentira que inventei pra tentar crer que existem outros como eu, que se inspiram espalhando nicotina pelos bairros dessa cidade cinza e fria, cientes da utopia que há em todas as coisas. De fato, esse tanto de coincidências entre nós reforça a idéia de que tu não existes. E é nela que me forço a acreditar quando sinto essa saudade sufocante de ti.

Tenho oscilado mais do que nunca. Ora desejo que tu voltes pra poder te dizer todas as coisas boas que precisam ser ditas. Ora desejo que tu voltes pra te impor, dissimuladamente, minha independência, essa falsa hipótese de que tu não me faz falta, te fazer sofrer por todo o sofrimento que tua partida sem volta me causou. De um jeito ou de outro, desejo sempre que tu voltes. E nós dois sabemos que, no fim, as coisas boas serão ditas, pois, ainda que haja, de fato, uma certa independência, o que impera é esse meu desejo de viver contigo as coisas que não tivemos tempo de viver.

Espero que essa seja a última carta sem resposta. Espero que entendas a mensagem. Mas tu bem sabes que eu vivo de esperar, meu bem. E que uma decepção a mais não pode me derrubar.

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