sábado, setembro 29, 2007

Momento

Interrogações formadas por fios de cabelo na porta do box.
Jogo água...
E todas as minhas dúvidas se vão pelo ralo.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Oh, yeah, of course...

É tipo um enjôo, ainda que não exatamente. Os dias se repetem. Todas as manhãs maldigo a vida que levo. Depois me convenço de que sou feliz e de que devo acreditar em todas as mentiras que me conto, que me contam. Sinto náuseas.

Eu acordo tarde demais. Sempre. Ainda que me comprometa seriamente ao contrário antes de dormir. Me arrasto até o chuveiro. Fumo um cigarro no caminho para o trabalho. Trabalho. Tenho evitado bom dias porque as réplicas soam por demais irônicas e me irritam. Meus pensamentos são mecânicos. Vontades quase incontroláveis de explodir as coisas todas, as pessoas, os lugares.

Eu não sei exatamente o porquê, mas alguns me julgam competente. Depois falam de minhas olheiras, que eu trabalho demais. Como se não soubessem que só o faço por falta de opção. Odeio políticas de boa vizinhança. As preocupações são ensaiadas e os conselhos, inúteis. Suspiro. Desejo ter uma arma na bolsa.

Passo os dias sangrando os dedos sobre o teclado. Tomo dois litros de coca-cola. Levanto-me apenas para ir ao banheiro. Não me olho no espelho porque ele denuncia minha hipocrisia e me faz querer vomitar. Alucino um pouco. O dia de trabalho tem longas horas que ora parecem demais, ora parecem de menos. De um jeito ou de outro, eu tenho sempre que estar lá. Nada vale a pena.

Adio compromissos porque me falta tempo. Eu gosto de pensar que estou adiando compromissos, mas a verdade é que eu estou me adiando, me deixando pra amanhã, pra amanhã, pra amanhã. Todos os dias.

E os momentos, aqueles de cerveja e riso. Eu quero, eu me apego. Eu me desapego, eu já não quero mais. Eu reclamo, eu tripudio, eu me rio de mim mesma, os outros riem de mim. Divertido. Uma fuga. Mas eu sempre tenho que voltar pra casa, pra cama, pro chuveiro, pro caminho do trabalho.

A velha do apartamento ao lado do meu me diz que emagreci. Tenho vontade de dizer que a verdade é que engordei três malditos quilos no último mês, mas não digo. Agradeço o que parece ser um elogio e sorrio. Ela sorri de volta. O mesmo sorriso das inúmeras vezes em que subo cinco andares de escada porque ela está segurando a maldita porta do elevador.

A verdade é que não existe nada além das paredes do meu quarto. O tal mundo lá fora é um reflexo de mim. Auto-ajuda. Repito mantras, medito, bebo erva de São João e vou dormir. Ha! O dia de amanhã há de ser um dia melhor. Não existe mesmo jeito de ele ser pior do que o de hoje.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Das coisas que não foram...

Hoje contei tua história pra mais um alguém. Falei de como viestes e de como fostes tantas vezes e da tal afinidade e de minha estupidez e das coincidências, as boas, as más...

Eu queria viajar no tempo, baby. Voltar p'raquela noite fria em que me notastes. E eu faria tudo diferente dessa vez.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Migalhas

Acordei febril, dez da manhã, não fui trabalhar. Sentei-me em frente ao computador, escrevi mil coisas. De repente uma voz de mulher, vinda da rua, grita: "anda, anda, já são seis!". Eram seis da tarde. Não sei onde eu estive no dia de hoje.

domingo, setembro 23, 2007

D

D dorme de toca. Literalmente. E só consegue sobreviver ao resto do dia se tomar um bom banho pela manhã. E isso é mais ou menos noventa por cento de tudo o que eu sei sobre D.

D é distante demais. Na maioria das vezes, fala somente com gestos, ainda que suas palavras ecoem mudas pelo ambiente. Insiste em dirigir-se a mim pelo meu nome completo, com todas as letras, e me faz elogios que, de tão desvelados, ruborizam-me as faces e me fazem sempre repetir que é tudo um exagero.

D tem sonhos que eu desconheço, mas que posso identificar quando percebo o desapego que ele tem das coisas às quais o mundo todo costuma se apegar. D se doa mais do que deveria, como ele mesmo reconhece, e isso acaba por torná-lo ainda mais admirável, ainda que triste. D guarda seu coração em um enorme vidro de conserva.

D não é imagem, é pensamento, é idéia que se forma depois de alguns minutos de silêncio, enquanto ele transmuta todas as nossas primeiras impressões.

D também é gourmet. De mão e boca cheia. E, inclusive por isso, forte candidato a meu padrinho de casamento e a convidado especial de almoços e jantares em meu futuro lar (isso se um dia eu chegar a me casar).

D é daquele tipo de amigo que a mãe da gente sempre gosta. É o clássico "boa gente", ainda que descrevê-lo seja uma tarefa árdua que jamais se resumiria a duas simples palavras genéricas.

D é vermelho. Por dentro e por fora. De um vermelho-vida, que ele transpira por todos os poros. E isso é tudo o que eu posso dizer sobre D.

quinta-feira, setembro 20, 2007

De mim, nos outros...

"They are playing a game. They are playing at not playing a game. If I show them I see they are, I shall break the rules and they will punish me. I must play their game, of not seeing I see the game."

R.D. Laing: Knots

sábado, setembro 15, 2007

Fragmentos de cadernetas III

Há sol. Sempre há sol. Mas o céu está cheio de nuvens. Eu, cá, sentada a uma das mesas do Café, na calçada, sob o toldo, sinto frio. Existe uma mesa ensolarada e penso se devo sentar-me por lá. Preguiça. Sono. Cogito ir dormir no chão do toalete feminino. Meus olhos estão se fechando. Os fins de tarde são sempre assim, morosos.

Ainda faltam vinte minutos e o banheiro está ocupado. Meus pés estão congelando. Sono. Muito sono. Vou acabar dormindo sobre a mesa. Minha letra sai mais borrada do que deveria e sinto vontade de abreviar as palavras. Preciso de algo que me desperte e essa água com gás não está adiantando. Cafeína. A idéia me faz levantar da cadeira e me arrastar até dentro do Café para pedir um espresso, bem forte. Não entendo porque espresso não se escreve com "x".

O atendimento aqui é péssimo, embora os donos, um casal de japoneses, sejam muito simpáticos. Um tanto quanto sem noção, é fato. Costumam me fazer agradinhos porque sou cliente assídua. Ontem, no almoço, me trouxeram um rissole de carne junto com o prato executivo que pedi. Eu acho que rissole não combina muito com arroz, feijão, bife e salada. Comi por educação.

Há um shopping logo ali na esquina. Um pequeno shopping. O nome é Springfield. Engraçado. Não. Engraçado seria ver o Homer Simpson sentando-se na mesa ao lado e pedindo uma cerveja.

Meu café chegou depois de não sei quantos longos e tenebrosos minutos. O primeiro gole me queimou a língua e vejo que isso foi bem mais eficaz para me fazer despertar do que a cafeína em si.

Eu já disse que, às vezes, odeio barulhos de moto? Passam muitas motos por aqui.

Tem esse menino, o garçom. Ele me olha estranho. Valdisnei, o nome dele (ele me disse outro dia, sem que eu perguntasse). Acaba de interromper meus pensamentos pra perguntar se eu conheço um bar chamado "Rodeio", no Bacacheri. Tive vontade de dizer que detesto qualquer coisa relacionada a rodeio e que jamais fui, nem tenho a menor intenção de ir, até o Bacacheri. Respondi somente que não, não conheço, e sorri. Ele se espantou. Arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão direita, soltou um ruído ininteligível e então disse que "todo mundo conhece, sempre lota, só no sábado deu mais de mil e quinhentas pessoas lá". Veio-me a vontade de um "Zeus que me livre", mas eu apenas sorri, mais uma vez. Ele disse que quando eu quiser conhecer o tal bar é pra falar com ele que ele me arranja convites. Reparem no "quando", ele não assumiu um "se por acaso". Ok.

Os vinte minutos já se passaram. Eu estou esperando o moço que sempre se atrasa. Acendo um cigarro. Já é o quinto desde que me sentei aqui, há pouco mais de uma hora. Sono. Muito sono. O café acabou. A língua já não arde mais. Bart Simpson acaba de passar apressado, de skate. Está começando a escurecer.

quinta-feira, setembro 13, 2007

A outra

Existe essa, que me espreita. Uma irmã gêmea. Veste as mesmas roupas que eu e penteia os cabelos do mesmo jeito. Faz pouco mais de um mês, dois talvez, que ela começou a aparecer. Eu pintava os olhos em frente ao espelho e a vi sentada no umbral da janela, fitando-me, com cara de nada. Susto. Gritei por socorro. Corri porta afora. Depois voltei, crendo ter tido uma alucinação. Ela ainda estava lá. Perguntei quem era ela e ela apontou um dedo torto na direção de meu reflexo no espelho. Mandei que saísse e ela deu de ombros. Perguntei o que diabos ela fazia ali e ela deu de ombros mais uma vez. Ela não fala. Até agora não disse palavra.

Houve uma vez. Eu assistia a um programa besta na televisão e ela apareceu. Sentou-se à mesa, apoiou os cotovelos no tampo de vidro e ficou me olhando. Eu questionei de novo a sua presença, a sua cara de nada. Mas, dessa vez, ao invés de simplesmente dar de ombros, como na primeira, como em todas as outras vezes, ela me fulminou com um olhar diabólico. Senti medo. Um medo ainda mais aterrorizante do que o que eu costumava sentir sempre que ela surgia. Saí de casa, como quem foge. Passei ao lado dela, medindo os passos, como se temesse que ela fosse se levantar da cadeira e lutar comigo até que meu corpo exausto despencasse da janela. Quinto andar.

No começo, ela aparecia apenas quando não havia outras pessoas por perto. Então, eu me sentia segura, lá fora, na rua. Fiquei dias perambulando pelos bares, parques, shoppings, dormindo em casas de amigos. Mas existe esse negócio de morar e eu precisei voltar. Quando entrei em casa, ela não estava. Senti-me aliviada, mas tensa. Ela esteve ausente por mais de uma semana. Depois voltou. Surgiu do nada, encostada na parede do corredor, uma mão na cintura, mordendo as cutículas da outra com seus dentes brancos como cal, iguais aos meus.

A presença dela me incomodava. Meu coração acelerava cada vez que ela fazia um movimento. Eu deixava escapar um putaqueopariu ou algo do gênero. Pânico. Fazia cara de espanto. Sei que fazia cara de espanto porque ela tem essa mania estúpida de reproduzir meus gestos do mesmo jeito que as crianças costumam fazer quando querem zombar de você. Aí ela me olhava, com aquela expressão diabólica e ria. Gargalhadas silenciosas.

O gato tinha medo dela. No dia em que ela surgiu, ele se escondeu na despensa e não saiu mais de lá. Quando eu ia lhe fazer um agrado ele soltava grunhidos, eriçava os pêlos, fugia de mim. Eu lhe dizia que estava tudo bem, que era eu, não a outra, e então ele me mostrava as garras. Acho que passou a ter medo de mim também. Somos iguais, eu e a outra. Um dia a porta do apartamento amanheceu aberta e o gato não estava mais.

Há algumas semanas, recomendaram-me um psiquiatra. É engraçado ver como as pessoas reagem quando você lhes conta coisas fantásticas. Primeiro elas se surpreendem. Depois compartilham da sua loucura e te contam causos sobre fantasmas e vozes do além. Finalmente, quando elas concluem que você perdeu completamente a noção da realidade, elas te recomendam um psiquiatra.

A coisa fica diferente quando você conta a sua história para o psiquiatra. Ele não pode demonstrar surpresa. Ele não pode dividir com você as histórias bizarras sobre os fenômenos estranhos que ele já presenciou. Ele também não pode te recomendar um psiquiatra. Então ele te fala sobre um transtorno assim assado, sobre frenias e manias e te dá uma receita. Tarja preta. Isso há de resolver, volte daqui uma semana.

Eu sempre soube que ela é apenas coisa da minha cabeça, que é só a minha imaginação. Mas você se sente um tanto perturbado quando a sua imaginação toma forma humana e passa a perambular pelos cômodos da sua casa, te seguindo, te julgando, te fazendo sentir medo da própria sombra.

Comprei o remédio. Tomei o remédio. Não adiantou. Ela continuou por perto. Ela suspirava e fazia cara de deboche quando eu tirava um comprimido da cartela.

Voltei ao psiquiatra depois de uma semana. Ela foi comigo. Acho que foi a primeira vez que saiu de casa. Contei a ele que o remédio não estava resolvendo, que a coisa havia piorado, disse-lhe que a outra estava ali, no consultório, parada em pé ao meu lado. Imaginei que ele ficaria preocupado, falaria comigo, confirmaria minha tese de que ela era apenas a minha imaginação, me faria entender alguma coisa. Ao invés disso ele concordou, disse que sabia que ela estava ali, que também podia vê-la. Eu a fitei com o canto dos olhos e ela fez que não com a cabeça. O doutor sugeriu internação. Falou sobre uma clínica, um lugar no qual a outra estaria proibida de entrar, e sobre um tratamento, que eu estava muito abalada, e sobre outras coisas nas quais eu não prestei muita atenção. Acho que falou também sobre o quanto era horrível ter a cabeça esmagada por uma enciclopédia médica. Eu não quero me internar.

Isso foi ontem. Hoje, quando acordei pela manhã, a outra estava sentada ao pé da cama, tamborilando os dedos na madeira do estrado. Não sei exatamente o porquê, mas eu não sinto mais medo dela, ainda que a sua presença não seja exatamente agradável.

Ela tem feições, essa moça, essa coisa. Olha-me com pena quando eu choro. Franze a testa e faz biquinho quando eu acendo um cigarro ou quando abro uma lata de cerveja. Ela arregala os olhos enquanto eu praguejo em voz alta, tapa os ouvidos enquanto eu canto em russo, lambe os beiços enquanto eu preparo uma omelete. Ela me irrita, é fato.

Resolvi que vou pintar as paredes da casa. Algo me diz que talvez eu só esteja precisando renovar o ambiente para me ver livre dessas insanidades. Ela suspira e faz cara de deboche quando eu digo em voz alta coisas como essa.