sábado, setembro 15, 2007

Fragmentos de cadernetas III

Há sol. Sempre há sol. Mas o céu está cheio de nuvens. Eu, cá, sentada a uma das mesas do Café, na calçada, sob o toldo, sinto frio. Existe uma mesa ensolarada e penso se devo sentar-me por lá. Preguiça. Sono. Cogito ir dormir no chão do toalete feminino. Meus olhos estão se fechando. Os fins de tarde são sempre assim, morosos.

Ainda faltam vinte minutos e o banheiro está ocupado. Meus pés estão congelando. Sono. Muito sono. Vou acabar dormindo sobre a mesa. Minha letra sai mais borrada do que deveria e sinto vontade de abreviar as palavras. Preciso de algo que me desperte e essa água com gás não está adiantando. Cafeína. A idéia me faz levantar da cadeira e me arrastar até dentro do Café para pedir um espresso, bem forte. Não entendo porque espresso não se escreve com "x".

O atendimento aqui é péssimo, embora os donos, um casal de japoneses, sejam muito simpáticos. Um tanto quanto sem noção, é fato. Costumam me fazer agradinhos porque sou cliente assídua. Ontem, no almoço, me trouxeram um rissole de carne junto com o prato executivo que pedi. Eu acho que rissole não combina muito com arroz, feijão, bife e salada. Comi por educação.

Há um shopping logo ali na esquina. Um pequeno shopping. O nome é Springfield. Engraçado. Não. Engraçado seria ver o Homer Simpson sentando-se na mesa ao lado e pedindo uma cerveja.

Meu café chegou depois de não sei quantos longos e tenebrosos minutos. O primeiro gole me queimou a língua e vejo que isso foi bem mais eficaz para me fazer despertar do que a cafeína em si.

Eu já disse que, às vezes, odeio barulhos de moto? Passam muitas motos por aqui.

Tem esse menino, o garçom. Ele me olha estranho. Valdisnei, o nome dele (ele me disse outro dia, sem que eu perguntasse). Acaba de interromper meus pensamentos pra perguntar se eu conheço um bar chamado "Rodeio", no Bacacheri. Tive vontade de dizer que detesto qualquer coisa relacionada a rodeio e que jamais fui, nem tenho a menor intenção de ir, até o Bacacheri. Respondi somente que não, não conheço, e sorri. Ele se espantou. Arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão direita, soltou um ruído ininteligível e então disse que "todo mundo conhece, sempre lota, só no sábado deu mais de mil e quinhentas pessoas lá". Veio-me a vontade de um "Zeus que me livre", mas eu apenas sorri, mais uma vez. Ele disse que quando eu quiser conhecer o tal bar é pra falar com ele que ele me arranja convites. Reparem no "quando", ele não assumiu um "se por acaso". Ok.

Os vinte minutos já se passaram. Eu estou esperando o moço que sempre se atrasa. Acendo um cigarro. Já é o quinto desde que me sentei aqui, há pouco mais de uma hora. Sono. Muito sono. O café acabou. A língua já não arde mais. Bart Simpson acaba de passar apressado, de skate. Está começando a escurecer.

Um comentário:

Di' stante Enfim disse...

Bravo, bravíssimo! Um belíssimo tratado sobre o coditiano incógnito. Aquelas coisinhas que passam desapercebidas, ante o olhar distraído da maioria. Afinal, estão demasiado ocupados entretendo-se até a morte. Gostei deveras senhorita:)