sexta-feira, setembro 28, 2007

Oh, yeah, of course...

É tipo um enjôo, ainda que não exatamente. Os dias se repetem. Todas as manhãs maldigo a vida que levo. Depois me convenço de que sou feliz e de que devo acreditar em todas as mentiras que me conto, que me contam. Sinto náuseas.

Eu acordo tarde demais. Sempre. Ainda que me comprometa seriamente ao contrário antes de dormir. Me arrasto até o chuveiro. Fumo um cigarro no caminho para o trabalho. Trabalho. Tenho evitado bom dias porque as réplicas soam por demais irônicas e me irritam. Meus pensamentos são mecânicos. Vontades quase incontroláveis de explodir as coisas todas, as pessoas, os lugares.

Eu não sei exatamente o porquê, mas alguns me julgam competente. Depois falam de minhas olheiras, que eu trabalho demais. Como se não soubessem que só o faço por falta de opção. Odeio políticas de boa vizinhança. As preocupações são ensaiadas e os conselhos, inúteis. Suspiro. Desejo ter uma arma na bolsa.

Passo os dias sangrando os dedos sobre o teclado. Tomo dois litros de coca-cola. Levanto-me apenas para ir ao banheiro. Não me olho no espelho porque ele denuncia minha hipocrisia e me faz querer vomitar. Alucino um pouco. O dia de trabalho tem longas horas que ora parecem demais, ora parecem de menos. De um jeito ou de outro, eu tenho sempre que estar lá. Nada vale a pena.

Adio compromissos porque me falta tempo. Eu gosto de pensar que estou adiando compromissos, mas a verdade é que eu estou me adiando, me deixando pra amanhã, pra amanhã, pra amanhã. Todos os dias.

E os momentos, aqueles de cerveja e riso. Eu quero, eu me apego. Eu me desapego, eu já não quero mais. Eu reclamo, eu tripudio, eu me rio de mim mesma, os outros riem de mim. Divertido. Uma fuga. Mas eu sempre tenho que voltar pra casa, pra cama, pro chuveiro, pro caminho do trabalho.

A velha do apartamento ao lado do meu me diz que emagreci. Tenho vontade de dizer que a verdade é que engordei três malditos quilos no último mês, mas não digo. Agradeço o que parece ser um elogio e sorrio. Ela sorri de volta. O mesmo sorriso das inúmeras vezes em que subo cinco andares de escada porque ela está segurando a maldita porta do elevador.

A verdade é que não existe nada além das paredes do meu quarto. O tal mundo lá fora é um reflexo de mim. Auto-ajuda. Repito mantras, medito, bebo erva de São João e vou dormir. Ha! O dia de amanhã há de ser um dia melhor. Não existe mesmo jeito de ele ser pior do que o de hoje.

Um comentário:

Di' stante Enfim disse...

Parece que vives em constante ebulição criativa, senhorita. Há quanto tempo não te visito? Se passastes tanto tempo assim? Brilhante! - ressalto a musicalidade de algumas passagens. A maneira que utiliza palavras homônimas com intenções distintas(" Fumo um cigarro no caminho para o trabalho. Trabalho")Além da fonética que foste deveras bem empregada.