quarta-feira, abril 10, 2013

Noites turvas

Que queria as luzes apagadas pra escrever e que escrevia sem olhar o papel e que depois a letra garrancho, as vírgulas voando, o cedilha cortado no lugar errado, os pontos finais como reticências. Que ela não entendia. E que o escuro era proposital e que não queria entender e que escrevia pra esquecer, pra tirar da memória, do corpo, da ponta dos dedos saindo um raio de energia cósmica. O tudo em que não devia pensar guardado em um rascunho ininteligível e a lateral da mão dela manchada de tinta azul e delírio.

Que não adiantava. Que a mente desenhava o rosto dele e as mãos dele e a voz dele e o perfume dele e que tudo era ele, pra onde quer que ela olhasse e que havia silêncio e que não havia expectativa nem medo nem lágrima.

Assim era. Ela perambulando pelos cômodos vazios, alisando os cabelos, sentido o cheiro de café e tédio, o barulho da água correndo, do apito do guarda, da ilusão e da preguiça enroscada em almofadas de veludo e cetim. A casa como um porão de filme de horror, as lembranças gritando, os discos empoeirados, os brinquedos de corda começando a funcionar sozinhos, o sangue escorrendo pelas paredes de madeira, os espelhos refletindo o que não existia.

Embora o tempo fosse outro e passasse e embora houvesse cor e brilho, ela buscando cicatrizes e só feridas abertas, unhas mastigadas, olheiras profundas. Ela em todos os lugares tentando substituir o insubstituível e queria risadas e escalava montanhas e tocava violão e bebia cervejas italianas e ouvia jazz e tudo o que nunca foi ele se tornava ele e ele era o vento e o tato e o esôfago queimando e o piano de Mingus.

E que a angústia vinha da espera, do não saber, do nada a ser feito. E que já estava resolvido e por isso não havia solução. E que ela sabia que tinha que seguir, que só havia um modo de seguir, que era sozinha, escrevendo no escuro, caminhando devagar pelos cômodos, revirando as caixas no porão, doendo em segredo. E sorrisos e ganchos e pestanas e ressacas e silêncio.

E que passaria. Que tudo passa. Que "é melhor viver do que ser feliz".

The Cure - A Forest

Caio

Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas agüenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo – é difícil de acreditar, eu sei – vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou. Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. “É melhor viver do que ser feliz”. Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demaais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.

terça-feira, março 19, 2013

Lá, aqui

Os olhos. Uma alegoria de verde ou azul ou mel. As mãos escondendo os olhos. O brilho por entre os dedos.

Sonho.

...

É dia claro.

Já cedo a loucura me sorri. Eu busco um verbo inconjugável pra dizer que não a quero por perto. É mentira. É verdade. Faltam crases, faltam vírgulas.

Mariana me conta sobre as fazendas e os pastos e as vacas e o leite e fala sobre descansar, sobre o pôr do sol mais lindo e o gramado verde cercando as casas, sobre necessidades, deveres. Eu não a escuto. Sua voz é mecânica, robotizada. Sua vida, idem.

Eduardo acende um cigarro e acena com a cabeça na direção de Mariana como que apontando sua pobreza de espírito. Aproveita minha distração e move o cavalo em um lance de seis casas. "Xeque". Mas eu tenho olhos pro tabuleiro, pro cigarro, pro telefone que não toca, pra Mariana e um outro ainda pra dizer, em silêncio, que não sou boba, ainda que eu seja.

...

Confundo memórias com vontades. Sei que dissemos pouco com palavras. Me pergunto se foi encanto ou fúria. Lamento meus impulsos, nossa pressa, tua perfeição.

...

Anoitece.

Edu me serve uma bebida quente. É verão e sinto frio. Não como nada há doze dias. Mariana penteia meus cabelos e canta em francês. Ele sorri e diz que precisa ir. Deixa meus remédios ao lado da cama e repete a prescrição duas vezes. Ela se levanta e me beija a testa de um jeito maternal. "Você está febril", ela diz, antes de pegar o casaco e a bolsa. Dou de ombros, desdenhando a não novidade. Eles saem.

Sozinha, no escuro, tateio ao redor buscando meus óculos. Todos os meus movimentos são impensados. Ouço o tique-taque do relógio. O tempo não passa em silêncio. Minhas mãos me gritam segundos. Elas sabem.

Adormeço.

...

E, então, você, de novo. Tua barba me fazendo cócegas. Você me dizendo o quanto gosta de Woody Allen, de queijo quente, de livro novo, de chuva, de veludo e seda, de ondulatória e do meu beijo.

Você não faz sentido, mas é bonito. E breve.

Eu querendo que você note o intangível, mas fazendo tudo errado. Céu de baunilha e os conselhos que eu nunca sigo. E algo como arrependimento, mas sem ser, toda vez que você vai embora. E você sempre vai.

...

Olhos negros, olhos negros. As entrelinhas que eu não leio. As bobagens que você não conhece. Amnésias e desvios. A outra moça. Os mortos todos. O som irritante do despertador. Distância. Apego. Saudade.

Pesadelo.


Nouvelle Vague - I Melt With You

domingo, fevereiro 17, 2013

Cento e oitenta

Perceber que os motivos de antes são os mesmos de agora, que eu sempre te deixei guardado em uma caixa, que colei a etiqueta "lembranças" na caixa e que nunca abri a caixa, por medo da melancolia.

Pensar no quanto me escondi, nas coisas que não te contei, no tanto que tu não soube, na intensidade que nunca te permiti conhecer. E na noção dos fatos que agora te falta por opção.

Perceber, contudo, que saudade era rompante que passava. E ver, dessa vez, a saudade em todos os cantos, em todas as horas. Sentir a saudade doendo nas juntas dos dedos de minha mão. Mentir a saudade, bêbada, como se ela fosse inédita.

Pensar no tamanho da dor que doía latente e nos gritos que eu tinha capacidade pra calar.

As capacidades que perdi.
A mentira que foi, que é, esse me afastar de ti.
O tudo tão diferente e tão igual.

Perceber o tempo passando, contar os dias, riscar os dias no calendário.
Cento e oitenta.
Que parecem dois.
E que parecem dez mil.

Imaginar que haverá outros cento e oitenta e outros mais. Cento e oitenta vezes. Porque eu não posso. Porque tu não quer. Porque já é tarde demais.

No fim, resumir tudo a um número. Grande o suficiente pra que eu o note, mas pequeno demais pra te fazer sentir.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

2013

Caio pedindo pra que fosse doce.
Eu não.
Que seja amargo, ácido, que tenha gosto nenhum qualquer.
Ou que seja doce, como quis Caio.
Não importa.
Desde que seja, seja como for.
Desde que não seja você.
Não-você é o meu desejo, minha meta, meu castigo.
Prometo-me a não espera, o não olhar a caixa de correio a cada cinco minutos, o não buscar meus traços pálidos nas tuas linhas sobre o clima, astrologia ou festas de fim de ano.
Que seja vil.
Que seja efêmero e egoísta como você supôs que fosse meu sentimento de ontem.
Que seja um tanto bonito, mas de um jeito não você.
Disfarço tédio com riso. Mas é tédio, não dor. E tédio é lindo. Esse tanto a ser feito e a gente assumindo a preguiça.
Eu.
Que seja real.
O barulho da chuva, fantasma de vento, tiroteio, motor de carro lá embaixo.
Fosse milagre esse negócio de resolução, de folhinha sendo descartada do calendário.
Mas não, eu sei.
Ainda um pouco de ti em tudo, um pouco de tudo em ti.
O ruído.
Só que menos, mais baixo.
Cada dia, hora, minuto.
Que seja rápido.
Ou que seja lento.
Desde que seja, seja como for.