domingo, fevereiro 17, 2013

Cento e oitenta

Perceber que os motivos de antes são os mesmos de agora, que eu sempre te deixei guardado em uma caixa, que colei a etiqueta "lembranças" na caixa e que nunca abri a caixa, por medo da melancolia.

Pensar no quanto me escondi, nas coisas que não te contei, no tanto que tu não soube, na intensidade que nunca te permiti conhecer. E na noção dos fatos que agora te falta por opção.

Perceber, contudo, que saudade era rompante que passava. E ver, dessa vez, a saudade em todos os cantos, em todas as horas. Sentir a saudade doendo nas juntas dos dedos de minha mão. Mentir a saudade, bêbada, como se ela fosse inédita.

Pensar no tamanho da dor que doía latente e nos gritos que eu tinha capacidade pra calar.

As capacidades que perdi.
A mentira que foi, que é, esse me afastar de ti.
O tudo tão diferente e tão igual.

Perceber o tempo passando, contar os dias, riscar os dias no calendário.
Cento e oitenta.
Que parecem dois.
E que parecem dez mil.

Imaginar que haverá outros cento e oitenta e outros mais. Cento e oitenta vezes. Porque eu não posso. Porque tu não quer. Porque já é tarde demais.

No fim, resumir tudo a um número. Grande o suficiente pra que eu o note, mas pequeno demais pra te fazer sentir.