Agora, mais do que tudo, me preocupa o fato de que meus cigarros estão acabando. Também me assustam a chuva e o vento, que já duram dois dias. As janelas aqui são frágeis, os vidros têm rachaduras e a água começa a entrar. Temo pelos gatos e pelos livros.
Além disso, é só você.
Há uma semana comecei a te escrever uma carta. São já umas trezentas linhas. Parte um guardanapo de bar, parte as margens do jornal de domingo, parte estas folhas amareladas da minha caderneta. Não posso passar a limpo porque muito vai se perder e eu não quero que nada se perca, quero que tu entendas do jeito que me veio. Entende, ainda, que há uma semana nada disso importava. Eu não sabia como te encontrar. Era uma carta escrita pra não ser entregue.
Me preocupa também que me atrapalhem a solidão. Dormi quase dezesseis horas pra poder acordar sozinha. E perdi mais umas três procurando a música ideal pra terminar de te escrever essas coisas que eu imaginava que jamais irias ler. É Tom Waits. Suponho que tenhas deduzido.
De tudo o que foi dito nesses rascunhos, o que eu preciso que tu compreendas é que o problema sempre foi minha incapacidade de confiar em mim mesma. Antes de ti, minha vida era uma sucessão de erros. Eram erros de contexto, de tema, tempo e lugar. E eram escolhas. Tu surgiste como um erro bruto e bonito, que eu não busquei, que era errado por absoluta impossibilidade de ser certo, que fazia valer a pena cada segundo de arrependimento. Mas que doía. Mais do que já havia doído qualquer outro erro.
No dia em que tu apareceste, a umas quatro ou cinco pessoas de distância, lembro que te julguei louco antes mesmo de notar a cor dos teus sapatos e o feitio das tuas mãos. Essa ideia, de que eras louco, foi só uma ideia por cerca de um mês, até que tua visita nessa casa de janelas frágeis me mostrasse que eu estava certa e que a tua loucura era vício instantâneo.
Foram dias, semanas talvez, até que deixou de ser possível fazer de conta que não. De algum modo as quatro ou cinco pessoas que nos distanciavam deixaram de existir e ficamos mais próximos do que é possível descrever ou imaginar. "Let's be weird together", tu disseste. E aí, meu medo e a gente, rindo, entre uma taça de vinho e outra, desejando que ele, o medo, fosse uma pessoa pra poder matar. Era incrível a quantidade de poréns que nos impediam.
Eu estava bêbada no dia em que disseste que ia embora. Senti que morreria pra impedir, senti alguma coisa, que na hora julguei ser minha alma, me escapando pelos dedos, pelos poros. Fiquei tonta, fiquei sóbria. E apenas me despedi sem lágrima e em silêncio.
E aí, alguns anos e trezentas linhas depois, me dizem que tu vais voltar, na hora mais e menos conveniente possível.
Eu queria muito estar bêbada agora. Não fico bêbada há anos. A fumaça quente e a brasa do cigarro terminam de queimar qualquer coisa dentro e fora de mim.
Me pergunto o que é que vem, já que essa coisa toda não seguiu exatamente a minha linha de raciocínio. Tremo de frio. Termino de escutar a mesma música pela quinquagésima vez. Rezo pra que este último cigarro dure por horas, pra que amanhã faça sol e pra te ver no olho mágico, em breve.
Enfim, de tudo o que foi dito nesses rascunhos, o que eu preciso que tu compreendas é que não há mais medo e que, apesar e por causa de tudo, eu não acho que seja tarde demais.
Tom Waits - Sea of Love