Sentou-se no banco da praça como quem pretende nunca mais se levantar. Não fazia sol, também não chovia. O céu estava todo coberto por nuvens, o que fazia dele branco e não azul - estranhou a natural negação de uma coisa tão natural. Olhou no relógio, passava pouco das cinco da tarde, demoraria a escurecer por culpa do maldito horário de verão. Deixou-se ali, sentado no banco da praça. Os pombos ao redor, senhores de muletas, mulheres barrigudas, crianças ranhentas, o sino mudo da catedral, o estardalhaço dos biscates, a suspensão dos ônibus rangendo, falatório, cenas de cinema. Acendeu um cigarro. Desejou uma cerveja, mas estava doente demais para se levantar. A nicotina lhe tirou dos ombros um certo peso que não se sabia como havia surgido. O banco era grande e curiosamente ninguém se sentou ao lado dele. Ficou por ali, sozinho, no banco da praça, observando os pombos e as muletas e as barrigas e as crianças. As torres da catedral pareciam um tanto curvadas. As pessoas caminhavam um tanto curvadas, como as torres da catedral. Filosofou qualquer coisa em voz alta sobre as curvas da estrada e as curvas da vida e sobre não ter como saber o que vem depois das curvas. Uma senhora o fitava, de longe, parecia imaginar-lhe louco, talvez ele fosse, era quase certo que sim. Acendeu mais um cigarro, na brasa do que já havia chegado ao filtro. Observou a fumaça da tragada subindo em direção ao céu, que agora era de um branco mais azulado, e sumindo. Desejou ser fumaça. Desejou subir em direção ao céu e depois sumir. E continuou sentado no banco da praça.
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