R.,
Eu sei. Não há mais nada a ser dito.
Existe ainda, contudo, aqueles dias em que é você e mais nada. Começo a julgar-me louca.
Ah, a fumaça espessa do cigarro, o armário do banheiro lotado de remédios, essa minha obsessão pelo leste europeu, quintas-feiras sem sentido. Já não sei mais se as coisas sempre foram assim, ou se passaram a ser assim somente depois de você.
Hoje um farol vermelho e meu pé fundo no acelerador. Nos dez segundos que antecederam a constatação de que eu ainda estava viva, tua imagem foi plano de fundo para os meus delírios de adeus mundo cruel. Aquela história de "toda a sua vida" é lenda. Dez segundos. Você e mais nada. E eu já vivi tanta coisa, meu bem.
Eu quis definir esse esquema. Li Freud e Jung e Reich e Lacan. Até entendi, mas ainda não aceitei.
Fato que tenho tentado esquecer. Mas há sempre uma brasa queimando no escuro, minha necessidade de pílulas para dormir, as histórias de meus antepassados, o tédio e tuas cartas gritando meu nome de dentro das gavetas, como se quisessem me impor a tua existência.
A verdade é que tudo me leva à lembrança de coisas que nunca existiram. Passo os dias maldizendo minha estupidez e lamentando a sensatez de outros tempos, mesmo sabendo que, provavelmente, seria tudo igual agora ainda que houvesse sido diferente antes.
Como eu disse, não há mais nada a ser dito, eu sei. Cansei-me de cartas que voltam. Dessa vez, não espero resposta. Dessa vez vou atirar meus devaneios sem envelope e sem selo na caixa de correio mais distante que encontrar.
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