segunda-feira, abril 16, 2007

Tempo

No escuro de um quarto qualquer, o relógio pisca 22:30. No terraço de um prédio o homem planeja minuciosamente seu suicídio. Ela dança entorpecida pelo álcool em uma boate do outro lado da cidade.O senhor muito idoso dá seu último suspiro numa cama de hospital. Continentes adiante uma bomba explode, ensurdecendo a população. Apaga-se a vela do bolo de aniversário, os cachorros latem nervosos. Numa lata de lixo, uma nota de cem reais é encontrada pelo mendigo. Em um bar distante o jogador experiente encaçapa uma bola de bilhar. O casal de namorados se despede em frente ao terminal rodoviário. Soa o terceiro alarme no teatro lotado. Na portaria o vigia dorme profundo. Um homem ferido sangra na esquina. Dois carros se chocam. A garota cega lê um cardápio em braile de um restaurante famoso. As formigas terminam seu trabalho. Alunos de uma faculdade descem as escadarias. O padre vai se deitar. Cai uma lágrima, começa a chuva. Ele acende o cigarro na chama do fogão. A prostituta se insinua para os motoristas no sinaleiro. O PM persegue um ladrão. O mar se agita, o vento derruba uma árvore. A música começa a tocar. Um corpo cai. E no mesmo quarto, agora iluminado pela luz de um velho abajur, o relógio pisca 22:31.

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