Eram os dedos dela alisando os cabelos dele que me incomodavam. E aquela chama de isqueiro constantemente tremulando enquanto ele levava o cigarro aos lábios. E o silêncio que se fazia entre os dois em alguns momentos e que não constrangia, acalentava. E a maneira como ela o olhava, enquanto ele fingia distração e cantarolava uma canção antiga em uma língua morta.
Era embaraçoso, baby, ver os dois assim. Ele, ingênuo, bebericando doses de gim que lhe queimavam as bochechas pálidas, o olhar apaixonado consumindo as pupilas dela como ácido. Ela, confiante, tragadas profundas num cigarro de cravo, jogando os cabelos pra trás e rindo e articulando frases de duplo sentido para aguçar os sentidos dele.
Ele empostava a voz pra dizer que estava com frio, que estava com sede, que estava com fome, que queria fumar um baseado e dormir até tarde no dia seguinte... e ela não dizia nada, mas seus dedos hesitantes bagunçando os cabelos dele gritavam que ela, só ela, tinha as cobertas e a cerveja e uma geladeira cheia de guloseimas proibidas e seda importada e nenhum despertador no quarto.
Ah, baby, eu sabia, lá no fundo da minha alma cansada e conhecedora das peripécias fantasiosas daquele moço, que ele já era um pouco dela muito antes... muito antes que ela enrolasse aqueles dedos tortos nos cachos ruivos dos cabelos dele, muito antes dessa mania que ela tem de sacar o zippo toda vez que ele pega um cigarro, muito antes de todos esses silêncios e de todos esses olhares e de todos esses suspiros, muito antes que os dois começassem a se esbarrar por aí, pelos bares, pela vida.
Não foi ciúme, baby, acredita... foi só esse ódio que eu tenho dos tais romantismos injustificados. Era por saber dessa posse dele que ela tinha que meu estômago ardia em chamas, e me doía aqui dentro alguma coisa, toda vez que ele lançava a ela um daqueles sorrisinhos idiotas, como que se dando sem saber, o tolo, que ela já estava quase esgotada de tanto o ter.
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