Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das nove. O moço nunca chegava no horário.
Goles de cerveja que ela não deveria beber. Tragadas num cigarro que não deveriam ser tão freqüentes e tão profundas. Sono. Tosse. Falta de apetite pro risoto de anteontem guardado na geladeira. Todos os dias eram assim. Acordar quando estava quase anoitecendo. Voltar a dormir quando já havia amanhecido. Entre os resmungos e os bocejos: cervejas, cigarros, uma ou outra alopatia, música, alguns rabiscos, banhos, maquiagem, filmes cheios de sentido, sexo, risadas. Valiam, às vezes, caminhadas, um ou outro compromisso riscado na agenda, visitas à mãe doente, compras no supermercado, reuniões com os amigos. Sempre um desejo contido de algo mais, algo maior. Sempre uma culpa por não estar nos lugares certos, fazendo as coisas certas, pelas mentiras, pela falta de sentido e pela filosofia barata e desmotivada de auto-destruição.
Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das dez. O moço nunca chegava no horário.
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