Era cedo ou tarde demais.
Uma terça-feira de um agosto que até hoje não terminou. Ele, eu, a janela, o sofá, taças cheias de um vinho caro e a incerteza do amanhã. Eu agia com a consciência de que cada minuto a mais era também um minuto a menos. E cada detalhe daquele dia é uma fotografia em um mural cheio de ausências e solidões.
Lembro que a desculpa era que bebêssemos juntos. Anos de distância, eu nem sabia ao certo quem iria encontrar. O coração acelerado enquanto ele se aproximava, suor frio, a adolescência toda de volta e, depois, ele me calando os batimentos cardíacos com um beijo... Ele me beijou logo que me viu, como se toda a lacuna fosse nada, como se pudéssemos recomeçar do exato momento em que paramos.
A janela. Uma paisagem noturna sem muito a oferecer e ele evitava me olhar nos olhos. Falamos pouco. O silêncio dizia tudo o que havíamos calado nos últimos anos. E não havia constrangimento naquele tanto de coisas que não éramos capazes de verbalizar. A sala como um bolha isolada no tempo e no espaço, um paradoxo em que os segundos duravam horas que passavam depressa demais.
O sofá e todos os meus protestos silenciados. Eu falava sobre a burocracia do trabalho enquanto ele me beijava a nuca, arrepiando todos os pelos do meu corpo. Declarações de amor em decibéis inaudíveis. Sabíamos que aquilo era tudo que teríamos. Uma noite, um reencontro que era também despedida, um algo maior latente que nunca iria se concretizar. Nossos corpos nus entrelaçados. Um momento.
E quando não foi mais possível estar, nos despedimos, com um abraço demorado. Eu antecipava uma saudade que doeria por meses. Ele, alívio. Ele também sabia o quanto aquilo tudo era efêmero e frágil. Mas ele queria que fosse assim.
E no apartamento de quatro cômodos ficaram as taças de vinho ainda pela metade, a garrafa quase cheia.
Era cedo ou tarde demais.
Carina Round - You And Me
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