Final de junho, 1999. Você nunca soube, mas foi um dos meus planos, o pior deles, pra superar uma tragédia qualquer da minha vida. Foi sempre muito óbvio pra mim que nada de bom poderia vir disso. Mas eu segui.
Foram três dias de alguma coisa que pareceu melhor do que o que havia antes. Primeiro dia. Muita fumaça e barulho. Segundo dia. Um nó na garganta ou algo assim. Terceiro dia. Um orgulho besta. Depois, eu alinhando o vestido burocraticamente enquanto te esperava chegar. O que se seguiu eu não sei ao certo se foi realidade ou pesadelo. Bebi demais durante todos esses anos.
Já no quarto dia eram efêmeras as coisas todas. O cheiro de amaciante das roupas pingando no varal, um beijo de bom dia, o gosto de café amargo, um som de vinil, uma urgência de qualquer bobagem.
Veio julho e decidimos pela estrada. Acordamos atrasados em uma manhã de sábado, antes de partir. Nesse dia, você matou umas coisas dentro de mim, em silêncio. Eram coisas boas, sinto muita falta delas.
Eu tive sempre que ser forte pra não permitir que você me enterrasse debaixo de uma pilha de suposições e julgamentos precipitados. Não sei quantas de mim morreram no processo. Sempre achei que acabaria deixando de ser eu mesma. Nunca pensei que eu teria forças pra me cansar de não ser.
Devia ser ainda o décimo dia quando me dei conta de que já era tarde demais. Nós dois, juntos, não fomos feitos pra começos. Tinha sempre um final em cima da mesa de jantar, entre os lençóis da cama ou no porta-malas do carro. Ignorei todos, enquanto mais coisas iam morrendo dentro de mim.
Ainda assim, foram anos. Quinze ou mais deles. Acordar atrasada pra vida todos os dias, vestir uma roupa qualquer, ir pra rua. A rua sempre teve mais cara de lar do que a casa. Na rua, havia paz.
Dia após dia você escancarava meus vícios e destruía minhas virtudes. Em pouco mais de um mês, eu já não tinha mais essência. A vida girou rápido demais. Perdi amigos, sorrisos, saudades, memórias. Perdi minha calma e minha fé na doçura do mundo e dos outros. Ganhei umas tantas vergonhas, uns tantos medos e diversas mágoas.
O último dia foi o mais longo de todos. Fiquei horas sentada na varanda, esperando você chegar pra te dizer que aquele era o último dia. Ele, o último, foi leve. Mas sobrou muito pouco de mim depois de tanta fuga. Dormi por setenta e duas horas. Depois houve tédio, dor e saudade de alguma coisa que nunca existiu.
Finalmente, me veio o hoje.
Hoje eu comecei a me reaprender, a aprender a não ser só, depois de tanto tempo sozinha. Os novos dias têm me trazido alívios e euforias e alguma coisa a mais que eu acho que dá pra chamar de sede de vida. Guardo os remendos das muitas quedas, as cicatrizes dos desassossegos. Mas o amor, aos poucos, vai deixando de ser uma desculpa para não amar.
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