domingo, março 08, 2009

Insight

O pior é o inesperado. Porque você não sabia, ninguém te avisou, que de um minuto para o outro tudo ficaria assim, tão diferente.

Cada quadradinho do petit-pavé da calçada. Ninguém te falou da sensação estranha que você sentiria ao passar sobre as grades de respiro das linhas do metrô. Cada um dos carros importados que passam pela rua. Você não sabia que olhar pro alto poderia ser surpreendente. Cada uma das putas, cada um dos bêbados, cada um dos loucos. Você nota a diferença entre os bolivianos gêmeos que sempre estão no bar da esquina. As madames passeando na rua com seus cachorros, todas elas, têm uma história de vida, interessante ou não, que você, subitamente, parece conhecer.

Você não imaginava sentir o vento dessa forma, agressiva, como que tentando te ajudar a soprar pra bem longe, como você sempre desejou, querendo te obrigar a ser o que você sempre quis ser, mas nunca teve coragem pra assumir.

A um par de horas atrás, nada fazia sentido. Às vinte e uma horas e cinco minutos do dia oito de março de dois mil e nove as coisas continuavam sem fazer sentido, mas foi nesse quase exato momento que isso passou a te incomodar.

Você, parado, perdido, sozinho, no meio da rua, então, se pergunta "e agora?". E uma brasa interna te queima as entranhas quando você deduz "agora nada".

Agora você volta pra sua casa, vai dormir na sua cama, acorda cedo amanhã e vai trabalhar, indefinidamente, até o nunca. Você não pode parar em uma bar e tomar uma cerveja, você não pode sentar pra conversar com o hippie sujo que vende artesanato na rua, você não pode ir passear no parque porque já passa das dez, é perigoso e, além disso, você tem que acordar cedo amanhã. Então você segue com sua vida medíocre, ganhando dinheiro pra poder gastar, porque você é apenas um animal assustado. Você continua a suportar pessoas e situações que você não merece porque, no raso, você pensa que é tarde demais pra tentar mudar alguma coisa.

No fundo, você quer sacar suas economias e comprar uma arma pra matar alguém sem importância. Ou uma passagem pro Zaire. Ou um curso de fotografia. Ou uma roupa de astronauta. No fundo, não importa o quê, desde que não seja o mesmo.

Mas você sabe, e lamenta, que nada vai mudar. Porque não dá, porque não pode, porque não deve.

E, no fim das contas, aquele seu momento único de minutos atrás acaba não valendo porcaria nenhuma.

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