sábado, março 07, 2009

Correspondência extraviada VII

R.,

Insanidade, talvez... passei a me perguntar se ainda pensas em mim.

A inútil verdade é que cá estava eu, sentada em minha cadeira, quando acendi um cigarro e subitamente tu me veio, como uma lembrança, memória ou desejo, não sei... E essa tua chegada repentina nada me trouxe senão uma certa agonia, um estalar de dedos de quem tenta exorcizar demônios inexistentes, nicotina de tragada profunda queimando os pulmões.

Queria te dizer que é como mágica. De repente me deparei com um DFW empoeirado na velha estante (sempre ele nessas minhas cartas perdidas) e um só conto bastou pra trazer esse gosto acre, corrosivo, à minha boca. Lembrei de ti e nem sei porque.

O que me mata são essas interrupções. Porque quando essa coisa surge ela vem como uma tempestade de verão que serve pra te pegar desprevenido no meio da rua, sem guarda-chuva. E se te avisam "olha, vai chover", você acaba indo pra debaixo da marquise e a chuva não tem o mesmo efeito. Essas interrupções me matam.

Tratemos isso como um interlúdio.

Eu ia dizendo que é como mágica. Às vezes tua presença é tão forte que me imagino louca ou obcecada. De fato é o que devo ser, estar. Porque um milhão de anos deveriam ser suficientes pra te apagar de vez, mas passados dois milhões deles, cá estou eu, a te escrever de novo essas linhas tortas e sem propósito.

A partida sem volta de Luana, além de todas as outras coisas, me faz perder a esperança de sonhos que se tornam realidade.

Já te disse que muito antes de que tu surgisse, tu me veio em sonho. Sonho que não posso contar, porque não lembro, mas sei que foi sonho e que depois se tornou realidade. Ficou em mim essa esperança de repetição da história. Ingenuidade a minha, bem sei.

Ainda não há nada a ser dito.

Eu tenho te procurado nas referências, entende? Uma carta anônima, um telefonema mudo. No fundo sei que são só os moleques, aqueles, a me pregar peças. Mas te procuro mesmo assim e de certa forma acredito que posso, um dia, talvez, te encontrar.

Enchendo a cabeça de ruído eu abafo o som de Chico Buarque que vem do bar em frente ao prédio. E quando me falta idéia, coloco Fiona Apple pra tocar.

Eu só não aceito que seja assim, sem ser. E é por isso que acredito firmemente em algo mais, em algo além. Eu diria que imagino. Não, não é isso que me mantém viva, mas é isso que me embala o sono. E a hora incerta de dormir acaba sendo a melhor hora do dia.

Sei sequer onde é que tu estás, se na Capital, se logo ali, espalhando nicotina pelo Bigorrilho. E esse não saber de ti dói, ainda que não seja o que mais dói.

O que mais dói, de fato, é o arrependimento pela minha pobreza de espírito de outras épocas, é não saber porque diabos não mais sei de ti, onde estás, o que fazes, quando voltas, se é que voltas. Essas minhas mensagens tendo que ser atiradas ao mar em velhas garrafas de vinho barato - isso dói mais do que tudo.

...

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