Começou quando discordamos sobre um quadro qualquer de Dali.
Um mês antes do fim. Caminhávamos de mãos dadas pelos corredores do museu. Ele fazia aspas no ar, com os dedos, quando falava a palavra arte. E era Dali, ali, diante de nós. E foi surreal, de um jeito ruim... Mas eu perdoei.
Eram três ou quatro meses e concordávamos em quase todas as coisas. Discordávamos rara e elegantemente. Nenhuma discussão era inflamada. Acabava tudo, sempre, em nada, em vinho, em riso, em paz.
Até a tarde de Dali.
Três semanas antes do fim era um filme de Almodóvar que ele nunca havia visto. Era cinema sobre o coma e ele dormiu na metade. Depois, sem que eu pedisse, justificou. Chamou Almodóvar de cineasta esquisito. Aspas no ar pra cineasta e me vi à beira de um ataque de nervos.
Marco dizendo que o amor é a coisa mais triste do mundo quando acaba, como na canção de Jobim... E eu perdoei.
Duas semanas antes do fim, no bar, entre amigos, Stormy Weather tocando no fim da noite, ele confessou que não gostava de jazz. Falou algo sobre intelectuais, fez de novo as tais aspas no ar. Eu já não ouvia nada além da voz de Billie Holiday.
"Life is bare, gloom and misery everywhere."
Mas ele tinha os olhos mais azuis do mundo e mãos de pianista e planos tão parecidos com os meus, de estrada e sossego e velhice... Então, de novo, eu perdoei.
Uma semana antes do fim ele fez críticas a David Foster Wallace, disse algo sobre não haver sentido e lunático, suicida, chato. As aspas imaginárias no escritor.
Antes que eu pudesse percebê-lo como homem hediondo, calou meus protestos com um beijo seco... E mais uma vez, meu perdão.
"He was, after all, just a little boy."
Aí, ontem, o fim. Ele me dizendo que gostava de sorvete de milho e que passas ao rum era um sabor horroroso. Com meu indicador sobre os lábios, dei-lhe as costas e saí. Passas ao rum. Sabor com aspas. Imperdoável.
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