Memorizei todas as tuas faces nulas de significados. De certa forma, tudo em ti se projeta em mim como se teus olhos, ou tuas mãos, ou teus pensamentos fossem espelhos planos me refletindo. Ainda assim, não sou capaz de reconhecer teus momentos, de separar teu ódio do teu apego ou da tua indiferença.
Analiso-te com um distanciamento quase acadêmico. E tu não percebes que me importo. Divago muito. Concluo pouco.
Tu és, sim, incógnita. Me fica, contudo, a sensação de que estás sofrendo de um vazio crônico que sequer te permite mistérios.
Já aprendi a identificar teus espaços e lacunas. Sei que o muito que havia em ti se perdeu em trajetórias não planejadas e cálculos mal feitos e que o melhor ainda está guardado em algum canto obscuro de tua alma solitária.
Eu vejo o sofrimento que os outros não vêm, o torpor que tu disfarças com efusividade e riso. Sei que o pouco caso que fazes da vida, e do amor, é fuga. E sei de tua beleza. Infinita.
Mas é tudo o que sei. E tudo se resume em não saber quem tu és.
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