quinta-feira, julho 19, 2012

Vírgulas

Tuas palavras penetrando minha pele como uma lâmina e o nada que te digo sobre a dor, sobre os vidros quebrados, as reclamações dos moradores do prédio em frente e o vinil antigo girando na vitrola.

Tu não vês, mas eu me esforço. Pra não parecer bêbada, pra não parecer louca, pra não te deixar perceber a dor, o medo, a urgência, o tédio em que me colocam todas essas pessoas pálidas e roucas e cegas e burras que nos rodeiam em todas as noites e em todas as manhãs e tardes e sonhos.

Sei que compreendes. Disfarças tua cumplicidade em ironia. Teu olhar, nestes instantes tristes e doces, é de infinito. O ar tu deixas rarefeito, quando involuntariamente nos lança quilômetros acima de toda a normalidade.

E tudo ao redor desaparece. E não se pode ouvir mais nada além do silêncio gritando obscenidades. E eu tenho vontade de chorar e de fugir, ou de te segurar pelo braço e te pedir silêncio e te dar um soco ou um beijo ou cravar uma faca no teu coração de pedra, argila, isopor.

O tempo que passa rápido demais e nunca acaba.

Teus olhos azuis, tuas olheiras fundas, tua boca, o movimento da tua boca, tuas mãos trêmulas, teus dedos tortos, teus cabelos claros e desalinhados, teus segredos guardados no cofre mais inviolável de todos os universos conhecidos, tua fome, teu ódio, teus sons.

Daqui, minha desobediência e meus acasos. A incompletude em mim que te incomoda e a realidade confusa e detestável que me prende como engrenagem enferrujada.

É difícil sobreviver a tantos detalhes e possibilidades, a esse hiato de coisas tão intensas e perfeitas diante de nossas mãos voluntariamente atadas...

Compartilhamos o desassossego, a solidão, a falta de vontade de estar, a sensação de nunca fazer parte. Sei também do teu impulso e do teu afeto. E tu sabes que minhas atenções inesperadas vão além da simples loucura.

Tenho pouco que me prenda, já te disse. Moscou é logo ali. Lá tem internet, vodka, poesia e céu vermelho. Diz que vem comigo e vou fazer as malas.

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