Harry Callahan apontando uma arma para a minha cabeça e dizendo "Go ahead, make my day". Eu me rendo.
Uma maquininha de apagar memórias e nada de morcego entrando pela janela, nada de taça de morangos com creme e minha irmã imitando Amelie, nenhuma despedida chorosa na porta do elevador, nenhum penteado novo, sem notícias da morte de Jeremias ou dos filhotes de Domitilla, não mais o fuso horário inconveniente, nem o encontro marcado pra daqui poucas horas, nada de teatro com os dedos dos pés e refeições no chão da sala e nada de desilusão ou desencanto.
A pior e a melhor parte. Só silêncio. E vinho barato.
Ela liga lá do outro lado do mundo em plena tarde de sexta-feira e eu sorrio ao ver o número estranho e longo no identificador de chamadas. Aí que nada mudou a não ser pra pior. O telefone de novo no gancho e uma lágrima estúpida. Maldigo a vida, o cheiro do ralo da cozinha e a cor cinza amarelada do meu sofá.
Fora daqui tem futuro, tem dia amanhecendo com jazz no despertador, tem a barba amarela daquele moço cheirando a cigarro. Fora daqui tem pouca realidade e uma estrada longa entre o agora ou nunca, sem pressão.
Aqui é só muito sono, muitos sonhos. E essa solidão de minutos marcados que eu às vezes desejo que dure pra sempre.
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