quinta-feira, setembro 03, 2009

Voltando...

Que vez ou outra vem uma tempestade destelhar as casas da vila e que precisa mês ou mais de mutirão pra cobrir tudo de novo, pra não mais deixar a água entrar.
Que quando chove fica feio o dia e que em dia de dia feio, as pessoas ficam feias também.
Que nesses dias de chuva as meninas não saem na rua com suas saias rodadas e sandalinhas de couro.
Que a chuva afasta também os moleques da vila que quase sempre estão na rua e só fazem jogar botão valendo dinheiro pra comprar doces na mercearia do Seu Moreira.
Que o Seu Moreira abre a mercearia mesmo quando chove, mesmo sem telhado, mesmos sem o dinheiro do jogo de botão dos moleques, porque ela, a mercearia, funciona vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, exceto aos domingos, das sete às oito, que é hora de missa.
Que a missa fica vazia quando chove.
Que quando chove, a água lava o petit-pavé da calçada e que as botas dos homens que têm que trabalhar com ou sem chuva sujam de barro o petit-pavé recém lavado.
Que Dona Anna morre de medo dos trovões, mas se faz de durona e sorri.
Que o cheiro da chuva só a chuva tem e que é bom adormecer com o ruído das gotas d'água espatifando nas poças que se formam entre os paralelepípedos.
Que mais cedo ou mais tarde a tempestade para e volta a brilhar aquele sol de primavera que deixa o céu alaranjado.
Que a noite, com ou sem chuva, é sempre bonita.
Que alguém uma vez disse que vale a pena viver por essas coisas.

Um comentário:

kk disse...

lindo.lindo mesmo.