domingo, julho 22, 2007

Suficiente?

Você tem que me dizer como funciona porque eu não consigo assimilar sozinha.

Eu fico sempre tentando imaginar como vai ser e acaba que nunca consigo entender como tem sido, como é, de fato. Agora, que você me fez parar e avaliar, tenho a vaga impressão de que já não é mais, de que já foi, já era. Você parece nada ter percebido. É inconscientemente que me incita a estas reflexões.

Gosto de imaginar que você também não sabe de nada. Está tanto quanto ou mais perdido do que eu nessa realidade estranha. E eu gostaria mesmo de um dia te ver coçar o queixo com a junta do indicador e fazer uma cara de interrogação. Mas já percebi que você não quer entender. Pra você, as perguntas se bastam sem resposta. Não existem perguntas, melhor dizendo. Não há nada pra ser entendido.

Eu ando precisando me afogar, babe. Ouvir uns sons de trovões. Sentir a minha pele ardendo de um incêndio no meu colchão. Quero algo extremo. Me entende? Provável que não.

Às vezes eu entro nessa de te considerar um enigma. Gosto de pensar que você se esconde. Propositalmente me iludo, tentando buscar em você algo que transcenda essa imagem apagada que eu vejo todos os dias. Mas a verdade é que você não é nada além disso. Esse monte de obviedade sem importância, de gestos mecânicos, de frases feitas. Você não tem segredos, babe. Você não tem dilemas. Nenhuma dúvida existencial, nenhuma pulga atrás da orelha. Você não se apaixona, não sofre, nem dramatiza. Até as tuas lágrimas, quando surgem, ficam logicamente alinhadas no teu rosto inexpressivo. Você sistematiza, pra parecer que sente coisas que de fato nem conhece. E isso porque te basta esse nada que temos, te satisfaz essa ausência de explosão que somos.

A mim falta de tudo. Faltam assombros, surpresas, excentricidades. Faltam momentos únicos que me ficariam na memória quando você já não estivesse mais aqui. Acho mesmo que você nunca esteve. E eu me lamento por isso, vomito lástimas em cima de você que nem náuseas te causam. Eu brigo sozinha, babe. Luto violentamente contra a tua ausência invariável de sintomas. Me revolto, me debato. Depois me declaro e durmo em teus braços. Mas em nenhum momento você está de fato aqui.

Pra você tudo é apenas a ordem natural das coisas. E não há caos. Não há altos e baixos. Você é linear. E eu gostaria de saber quem te fez assim. Porque não é bem humana essa ausência de reação às coisas todas da vida. Você é sinistro, babe, como você mesmo disse outro dia. É sinistro.