Você sente que é um sonho. Nightmare. A noite de ontem não aconteceu. Nada aconteceu desde a noite de ontem. A pontada nas costas te faz lembrar da necessidade de comprar um novo colchão. Você sai da cama com o pé esquerdo, sem perceber. A porta da sua casa amanheceu aberta mas, aparentemente, ninguém entrou e ninguém saiu. O gato dorme no sofá. São oito da manhã. Seu jejum já dura trinta horas.
Cerveja. Parece idéia fixa e seus amigos já te chamam de alcoólatra. Ontem ela te motivou a se enfiar em uma roupa apresentável e descer para o bar. Ela e a sua falta de paciência para as lágrimas ácidas que corroíam seu rosto.
Você sempre chega na hora certa por mais que se atrase. O chão como tabuleiro de xadrez. Há duas horas atrás você era o rei. Agora dois cavalos ameaçadores e dois bispos moralistas te obrigam a assumir sua posição de peão.
Pale Ale. Primeiros acordes. Seus cotovelos apoiados no balcão molhado do bar. A Lucky Strike tem uma publicidade agressiva. Calor. Todos têm o mesmo corte de cabelo. Você fuma, mas a fumaça dos cigarros alheios te incomoda. Sono. Você sente que precisa de um café amargo, ainda que você não goste de café.
Não dá exatamente pra saber em que hora do dia ou da noite passada começou o pesadelo que, agora, oito da manhã, você se esforça pra esquecer. Teve o sorriso hipócrita daquele moço. Eram sete e qualquer coisa da noite. Antes ainda uma espera que você não sabe se começou na tarde de ontem ou numa tarde qualquer de mais ou menos um ano atrás. Fato que foi ficando pior. O gosto das suas verdades ainda não saiu da sua boca. Agridoce.
A língua. Você falava uma língua que ninguém mais entendia. Sua mania de inventar palavras. Sempre foi assim. E quando você diz que acabou é porque está apenas começando. Seus delírios de opostos que se atraem. Ontem você chorou o impossível e hoje é impossível chorar. Você já nem faz mais questão de concordar o sujeito com o verbo. Seu adeus. Todo adeus que sai da sua boca sai tímido e dissonante. Os outros escutam um até logo.
Ontem não teve adeus. Passos trôpegos pra casa. Alguém gritou que você morreu. Tragicômico. Socos na parede. Você dormiu esperando. São oito da manhã e você ainda está esperando. Toda a humanidade está ocupada no momento, aguarde um minuto e sua chamada já será atendida. Há seis meses nada acontece. É um sonho. Serão precisos dez baldes de água fria pra te acordar. Mas alguém muito mau acabou com a conveniência dessa história, trancou a porta da sua casa e jogou a chave fora.
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