R.,
Espero sentada sob a sombra de uma árvore na tua, na nossa, praça. O tempo passa e anoitece. Vejo ao longe a brasa do que suponho ser teu cigarro. Levanto-me. De certo modo, tudo me lembra o dia em que me contaste sobre a parede caiada, a boina verde-musgo do guarda e teu último palito de fósforo.
Desta vez são os teus passos que demoram. Os minutos se arrastam e tu não chegas. Por sorte, há o álcool e não sinto frio. Ensaio as palavras, esperando que o próximo círculo de fogo no horizonte traga junto teu corpo esguio, tua barba amarela, teu sorriso tímido... Mas tudo o que há são lembranças.
Chamas demais entre nós... E, longe de mim, vives dia após dia a única mentira que te permitiste contar, embora saibas toda a verdade. Os olhos dela não brilham, meu bem. Vivem, sim, fora do corpo que a carrega. O brilho que às vezes vês vem dos teus olhos. Tu sabes que ela nunca entendeu as perguntas e tampouco tem as respostas.
Ela é delicada. "Eu poderia rebentar-lhe a face apenas com um impulso da minha mão direita" e sem a ajuda de meus anéis. Não o faço e não é por pena ou por medo. É que ficou tão tarde... As luzes dos prédios ao redor da praça estão todas apagadas. Já não faz mais sentido lutar.
Tu não virás esta noite. Amanhã, talvez. Não desistirei de esperar. Não por ter esperança, mas por não ter nada mais, nada além. E porque sei. Sei de todas as coisas que não contaste a ela e não contaste a mim, mas que eu fui capaz de deduzir e ela não. Sei do cheiro de nicotina impregnado em tua pele, o cheiro que ela não pode suportar, mas eu posso. Sei que, embora admire, ela não entende, como eu entendo, tua poesia e teu torpor.
Nossa mania de contar os dias riscando as paredes com giz. Nossa insônia. Os "colchões cheirando a mofo", os "lençóis rotos". O jazz. Odessa. DFW, Hopper, Kieslowski, je t'aime tant. Espero, pacientemente, admitindo o inadmissível: "é ridículo, mas acaba sendo amor."
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