quarta-feira, fevereiro 02, 2011

2011

Te dizer que tem sido uma merda. Olho o relógio digital na tela do computador, os segundos regridem. Como se fogos no céu houvessem causado um incêndio. A casa queimada, as fotos queimadas, nossos esconderijos, nosso medo, nosso torpor... Tudo queimado. O disco travado na mesma música. "Is a loosing game". Eu minto. Minto para Luana e para Maria, minto para Eduardo, minto. Engano ninguém, bem sei, mas é mais fácil assim. Prefiro conviver com as caras de dúvida e preocupação do que ter que me submeter a conselhos e consolos que confortam mas não curam. Tudo aleatório agora, mil coisas. "Why do I wish I never played?" Eu deveria usar pijamas, só pra ter a sensação de não sair deles durante o dia todo em plena segunda-feira. Tudo diferente e não se sabe quando foi que mudou. Os fogos, os fogos. Algumas coisas, porém, continuam igualmente boas, mas talvez apenas porque não sejam, não existam. Não se sabe. "Oh, what a mess we made". Ela, ela, ela. Ela faz falta demais e isso dói e eu quase penso em entrar na loucura e ir embora de vez. Trocar de marca de cigarro me dá dores de cabeça ou ao menos justifica minhas dores de cabeça inexplicáveis. Amanhã testarei um paraguaio que há de me deixar rouca também e terei explicação para a voz que me falta. Preciso ainda de algo que me justifique os dedos tortos das mãos voltando a expressar coisas obscuras. Ou não. De um jeito ou de outro, você entra em casa e espera encontrar. A planta viva, o gato alimentado, a cama feita, o teto do banheiro descascando, a louça suja na pia, as marcas de pés nas paredes. De um jeito ou de outro. Eu não deveria ter voltado. Nothing "is more that I could stand". Engraçado que tenha sido hoje. Não. Trágico. Tragicômico, logo hoje, logo hoje. Eu sou o ponto de interrogação desenhado sobre a cabeça de Jack. A felicidade consiste em poder desistir de tudo o que não aliena. Não leia, não ouça, não pense. Liberdade é poder não sentir. Não sinta, não sinta, não sinta. "Memories mar my mind". Eu caminho para o abismo e estou longe de tudo. Da verdade, do sorriso, do que existe em comum e não teve chance de existir, do soco inglês que ele usava como fivela, dos pedaços de banana que ele dava aos cachorros, dos bilhetes espalhados pela casa, do sonho adolescente, do teatrinho que ele fazia com os dedos dos pés, dos pombos da praça, do abismo em si, de tudo. Ficou por perto só esse não saber, insegurança, esse sentir que se anula porque não tem contraponto, essa certeza cruel. Ainda é quarta-feira e o sábado só chega daqui a trinta dias. Te dizer que tem sido uma merda.

Nenhum comentário: