sexta-feira, setembro 10, 2010

Fragmentos de cadernetas IV

Carregando o peso de um tudo nas costas.

"A fé remove montanhas, mas com dinamite é mais rápido". O caminhão carrega porcos e o cheiro é insuportável. Ele é lento. Quando a gente ultrapassa eu faço sinal com o braço e o motorista sorri e buzina. Ele não liga pro cheiro dos porcos. Ele sorri e buzina.

Dá pra dizer que eu estou acostumada. Mas quando pesa demais, eu sento e escrevo. E bebo uma cerveja. E fumo um cigarro. Eu sou dependente dessas circunstâncias, sou sim. De certa forma, isso tudo clarifica, me faz ver direito o que parece ser invisível.

Todo dia você descobre coisas novas. É bom ir de carona pra poder apreciar a estrada. O verde ressecado pelo sol contrastando com a fumaça das fábricas. No volante você perde tudo isso. Olhos fixos nas placas indicativas, nas luzes de freio na sua frente, nas possibilidades de ultrapassagem, nos buracos do asfalto que arrebentam rodas.

E eu não tenho conserto, não quero conserto. Eu quero pra sempre poder continuar dependendo da nicotina, do álcool e desses meus dedos tortos pra aliviar esse peso estranho, tentando transformar o que eu não entendo em algo belo.

A parte mais bonita da viagem é Campo do Tenente. Gosto de olhar as planícies sem fim, os pastos. O sol está sempre se pondo quando a gente passa por Campo do Tenente e é um espetáculo lindo, que eu me sinto privilegiada por poder assistir tantas vezes. Gosto do nome da cidade também, embora eu não saiba exatamente o porquê.

Porque nenhuma outra receita funcionou comigo. Como Caio, eu já li tudo, já tentei tudo (macrobiótica psicanálise drogas acupuntura yoga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé ecologia), menos boate gay e suicídio. Da mesma forma, sobrou só esse nó no peito e não há nada pra se fazer.

Acidente com morte hoje e ficamos uma hora paradas em um engarrafamento de curiosos. O ser humano é mórbido, não é? A gente achou que o acidente bloqueava a pista, mas não. Um carro capotou no acostamento, a perna do motorista esmagada pela lataria de um passat alemão, os pedaços do carona espalhados na grama. A gente também passou a dez por hora pra apreciar melhor o sofrimento alheio.

Então, lentamente, eu despejo pensamentos aleatórios no papel e o peso vai se aliviando. Eu concluo algumas coisas com pouca importância, outras importantes demais. Mas fica sempre uma sensação de que nada importa, de fato, de que o mundo vale cada vez menos a pena, de que a vida é uma sucessão de erros e não tem porque ficar insistindo em recomeços. Tentar cicatrizar ferida exposta se ferindo de novo é burrice, bobagem, ilusão. Só machuca mais.

É ruim quando atrasa. Eu e ela gostamos de chegar cedo e aproveitar a noite. Como é sexta-feira a gente não reclamou tanto porque as noites de sexta-feira são sempre mais longas.

Escrevendo, bebendo e fumando. Um blues também cai bem. É um exercício eterno. Eu gostaria de me convencer de que não é preciso carregar, gostaria de abandonar o fardo pelo caminho. Eu sei que é isso que eu deveria fazer mas, às vezes, a esperança é inevitável, a sensação de que vale a pena carregar o peso até que ele se torne leve. Eu sempre estou errada.

Eu disse a ela que era melhor a gente pegar o Contorno Sul por causa do horário. Ela preferia ir por Mandirituba, mas seguiu meu conselho. Foi péssimo. Mais uma hora paradas no trânsito de sexta-feira e dois encontros sendo cancelados. Mas ela riu. O bom de viajar com ela é que ela tem esse senso de humor único e é um tanto quanto louca. A loucura é essencial.

Eu tenho essas vozes na minha cabeça. "O amor é para idiotas. O máximo que você pode ter é companhia. No final, o príncipe encantado vai sempre se resumir a beijos de bom dia e frases feitas sendo repetidas sem vontade. Não existe nada além disso, meu bem, nada." (In)Sensatez? É uma pena que talvez seja mesmo assim.

A noite é uma sequência de luzes vermelhas que dariam uma bela foto, mas minha câmera quebrou. Ela se cansou de alternar os pés nos pedais e me pediu pra dirigir. Eu concordei, embora deteste não poder correr.

Eu queria que fosse mais rápido, mais fácil. Dói demais carregar esse peso. Eu quase desisto. Quase largo o fardo no caminho pra tentar viver como se ele nunca tivesse existido. O pior é saber que não dá. Se eu largo hoje, amanhã volto e busco, jogo nos ombros de novo e volto pro papel, pra cerveja e pro cigarro. Eu preciso aliviar a pressão e definir o meu rumo, de uma vez por todas.

Enfim, a chegada. Os olhos vermelhos, o corpo dolorido. Descansar até a próxima semana.

Mas se a gente não chega a lugar algum, uma hora a gente tem que parar e deixar tudo pra depois.

Qualquer viagem, por melhor ou pior que seja, sempre acaba. Eu amo a estrada, o percurso. O final é sempre triste. Mas na semana que vem, ou no mês que vem, ou no ano que vem, ou daqui uma década, você tem que começar a trilhar o caminho todo de novo e vai ter que chegar em algum lugar, do qual provavelmente terá que voltar depois. Não dá pra não pensar que é tudo em vão, embora seja válido. Eu estou cansada. Queria mesmo era poder parar pra sempre em algum destino bom. Queria nunca mais ter que carregar pesos como esses que agora me arqueiam as costas.

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