Do nosso tempo eu perdi a conta. Sei, devido à noção que meu rosto no espelho me dá, que são vários, longos anos. Mas parece mesmo que são só alguns meses, às vezes parece até que foi ainda ontem.
Eu só tenho lembranças bestas de ti, moço, e isso é bom. É como se sempre tivéssemos sido leves. Tanto naquelas longas noites quanto naqueles poucos dias. Sempre fomos leves.
De fato, não nos aprofundamos. Nunca. Mas estivemos o tempo todo à beira do abismo. Meu medo de pular, tua insistência para que eu me jogasse de uma vez por todas. A distância, os planos. Acho que nunca te disse que a culpa foi toda dos meus planos. Sequer te contei quais eram meus planos. Eu tinha uma impressão borrada de que tu não entederias e a minha revelação definiria o quanto éramos diferentes e impossíveis um para o outro. Hoje admito que fui fraca. As dúvidas de antes não me freariam agora que freiam a ti. Nesses dias frios como o de hoje, sinto uma vontade tardia de finalmente me jogar, mas no lugar do abismo há agora uma muralha.
Depois de ti, moço, segui incontáveis caminhos errados, tu bem sabes. Sorte a minha que não sou de me arrepender, mas lamento um pouco. Lamento menos quando observo de longe a tua vida. Talvez o medo de pular fosse um sinal. Eu não me encaixo no teu mundo ideal, jamais me encaixaria. Mas talvez teu ideal de mundo fosse diferente se eu houvesse cedido ao teu apelo. E isso me confunde e me atormenta um pouco.
Pode ser que em alguma outra dimensão estejamos juntos, levando uma vida quase perfeita. Eu seguindo meus planos antigos e tu deixando tuas raízes pelo caminho para me acompanhar nos comboios da vida.
A ironia é que nesta dimensão eu acabei abandonando tudo que nos separava, que nos tornava diferente um do outro. Nesta dimensão, tu agora és um tanto quanto itinerante e eu vou ficando por aqui mesmo, presa a uma porção de coisas que detesto, esquecendo aos poucos o conceito de liberdade.
Enfim, não sei bem ao certo porque comecei aqui esse compêndio de melancolias. O que eu queria dizer é que nesses dias frios como o de hoje, sinto sua falta. Sinto falta de esquentar meus pés com as tuas meias e dos pratos enormes de sopa ou qualquer outra coisa que tu sempre me trazias, por nunca saber o tamanho da minha fome. Lembranças bestas. Leves. Só isso.
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