segunda-feira, agosto 29, 2011
Ilusão
Apenas imagino... Mãos trêmulas e coração acelerado das nove xícaras de café. Bonita a voz dele ao telefone. Aguardo o tal técnico resolver o problema com a minha internet e divago. Ele define um destino e não me conta qual é. A lua está bonita; lamento não ter janelas. Me pede pra vestir vermelho e pra levar um chapéu. O menino da internet não sabe mexer com fios; eu ajudo, pensando no absurdo da situação. A despedida é em uma língua qualquer que eu não entendo. A mãe liga e diz que Domitila foi operada e passa bem; ouço Domtila latindo; sinto saudades. Eu sei tanto... e quase nada sobre ele. O moço da telefônica sai, prometendo, sem certeza, só mais meia hora de vazio e silêncio. Nós temos pouco tempo e muito do pouco que temos nos roubam. Abro uma cerveja. O mundo está cheio de ladrões. Acendo um cigarro. Espera longa e ele chega, todo de preto, sorrindo de um jeito que é só dele. Minha consciência pesa toneladas de exercícios físicos não sendo feitos. Caminhamos de mãos dadas, sob o sol. Prometo tudo pra próxima segunda-feira e pretendo cumprir. Não há rumo, ele confessa; meus olhos brilham confusos. Eu vivo, há meses, só de promessas. Ele me beija. Me pergunto quando é que vou criar resistência ao alcool, esse maldito. Velocidade demais nesse mundo estranho; um piscar de olhos e já passa das três da manhã. Meia hora e nada; eu apelo, mas "todos os nossos atendentes estão ocupados". Ele me diz que é tarde e que precisa ir. Penso em coisas aleatórias; tédio; maldigo o provedor de internet até sua oitava geração. Eu desejo um tempo que não passe, um lugar que não exista. Por breves segundos fico sem entender minha frustração e minha ansiedade. Não dá pra ter. Depois amaldiçoo, mais uma vez, toda a tecnologia. O adeus é lacônico; saudade antes da partida. Procuro ver as coisas por outro ângulo, mas há apenas um ângulo que me interessa. Tudo perfeito demais; horas em segundos, dias em minutos, semanas em suspiros mudos e falta de ar. Séculos depois, milênios talvez, desisto e ligo a televisão. Difícil definir se é realidade ou fantasia. Passa a novela. Parece novela.
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