De repente um tempo que eu não tenho. E penso. Sinto na garganta algo que parece ser um coração prestes a escapar pela boca e me lembro do quanto odeio clichês e do quanto eles são reais, sometimes.
Minimizo.
É apenas um sentimento.
Não, são vários, centenas deles. Todos esses vitrais coloridos, todas essas paisagens nubladas. Minhas tantas saudades, minha vontade, meu amor, meu ódio.
Silêncio.
Duas madrugadas em claro e nesta noite o nada. Eu perco oportunidades demais. Arrependo-me. Entre tantos motivos que tenho pra me arrepender, escolho o mais banal. De fato, é o motivo que me escolhe. E me culpa, inocente que sou, por este silêncio de hoje, de agora.
É quase mentira. Tragédias que me fazem rir e lamentar. Enquanto isso, a chaleira apitando, rádio antiga sintonizada, meus pés descalços, doentes de tanto andar em círculos, se arrastando pelo piso frio da cela. Nenhum contato com o que há do lado de lá dessas paredes finas, desses muros altos, dessas distâncias invencíveis.
Espero. O guarda anuncia visitas que eu não quero receber. Não agora, não hoje. Meus desejos calados pela ausência de quem não pode vir. The last one... The last one?
Tenho três problemas que remédio nenhum trata. Ouço o tempo todo esse ruído, tilintar de taças. Algumas vezes elas se quebram. E a minha memória vai se perdendo um pouco em cada brinde. Vivo, pois, de surpresas. Para além do que parece ser bom, pesadelos tomam forma e eu queria poder explicar como tudo isso funciona.
Na vida burocrática dos dias ditos úteis há pouco ou quase nada. O mate, um sorriso, saltos altos, o dinheiro pro café que eu não bebo, as compras no supermercado. Na falta de disfarces decentes, me camuflo e deixo de fazer sentido.
Há sempre a noite, contudo. E a música.
Penso no moço da eletricidade e do desconcerto, nos dois ou três meses que já se passaram, no que eu quero muito, mas não preciso.
E aí, dez minutos atrás; planos efêmeros e todas as outras coisas que eu não consigo enxergar nesses momentos depressivos e sensatos.
Depois as broncas carinhosas no gato roedor de fios, o único abraço, meu próximo carro, a noite que nunca acabou, a voz de Brian Setzer, "your kiss of fire", a viagem pra Paris... Mesmo as contas pra pagar, o concerto do chuveiro, a louça suja na pia, os domingos tediosos.
Poucas coisas me fariam abdicar da minha sensatez. Poucas coisas.
Ordeno meus devaneios. Primeiro, apenas utopia. Por último, sensação de eternidade. Entre isso e aquilo, essa semi-realidade, nada normal, que me tira, cada vez mais e cada vez menos, o sono e a paz. Não posso me prender a tantas coisas. Faltam cordas, nós demais.
Eu oscilo. Ora delírio. Ora ilusão. Ora verdade. É fogo cruzado. Por não saber pra que lado correr, permaneço imóvel. Fantasio, sempre. Mas nada afasta a realidade das coisas, os dias frios e cinzas, essa inacreditável solidão...
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