É previsível, pra dizer o mínimo. Mas vai além disso. É tudo aleatório, normal e anormal ao mesmo tempo, o tempo todo.
Meu medo constante e esses impulsos de loucura. Meu mau humor e meu sorriso infinito. Momentos em que imploro por silêncio e solidão e a paz que só existe no seu abraço. Minhas súplicas ignoradas e meus desejos sempre atendidos. As coisas todas que você não entende e não tenta entender. A complicação que você deduz. Sua chatice infinita, sua falta de bom senso. Minha aprovação muda à sua sensatez quase burocrática.
De outro lado, sua sede por explicações. Sua maldade quase ingênua. Não, não quase, ingênua sim. O modo como você se irrita ou se emociona ou se... Sua exposição infinita de defeitos e qualidades. Meio tosco, meio erudito. O som das cordas que você dedilha e, incrível, consegue me irritar. Suas explanações, meus bocejos, meus aplausos. Os pontos finais que você não coloca. Seu cheiro, tão bom, de nada. Seus sonhos sem limites. O jeito como você prefere as coisas que quer e ignora as que precisa. Sua aversão a conselhos.
É essa falta de lógica que me encanta, embora às vezes me tire do sério. É sua pouca culpa, seu hálito sempre fresco, sua coragem, sua consciência pesada, suas manhãs de ressaca, sua covardia.
E, também, esse cotidiano chato e encantador. Minhas vezes de lavar a louça. Suas meias espalhadas pela casa. Nossos treinos de dança. A sua espera, a minha ausência. Nossos planos, nossas dores, nossos vínculos.
O que fica, de tudo, é bom de um jeito que eu não sei explicar. E é eterno, embora eternidade não exista.
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