segunda-feira, março 14, 2011

Gerônimo

Tosse, tosse. Os batimentos cardíacos sendo sentidos na garganta. Visão turva. Uma dor latejante na parte de trás da cabeça. Cigarro. O silêncio do papel queimando em câmera lenta. A tragada profunda dilacerando a faringe, a laringe e tudo o mais que há. Chá. Tosse. Água. Mais um cigarro. As veias roxas. Comprimidos do tamanho de bolas de gude. Olhos fundos, cabelos sujos e despenteados. Música. Mais tosse. E outro cigarro. Pequenos canivetes perfurando o caminho todo até o pulmão. Bosch, o jardim, as delícias. Os gritos mudos ecoando pelos quatro cantos do quarto sem janelas. Saudades do gato. Tosse e cigarro. Pequenos pesos imaginários arqueando-lhe as costas. Insistência masoquista. O gosto de nicotina nos lábios rachados de frio e ansiedade. A tosse em uma mão e o cigarro na outra e não há um segundo sequer de dúvida. O cheiro de fósforo sorrindo amarelo, sarcástico, ensurdecendo-lhe os dedos manchados. Os olhos fechados, a falta de ar, um desejo infantil. Que fosse impulso, que fosse fácil, que fosse simples. Simples como tosse e cigarro.

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