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Triste precisar desse fundo negro para poder falar contigo. Sinto saudades da eletricidade de nossas conversas.
Hoje me veio uma provável resposta: o que te afastou de mim foi a mesma coisa que um dia te tornou possível. Ao menos foi a essa conclusão que cheguei depois de quase dezoito mil horas sem que nada mais me viesse de ti. Estou certa?
Eu sinto cada minuto, moço, e já são mais de dois anos. O tempo quase não passa, os dias se repetem. Eu anseio pelos fins de tarde, na esperança de encontrar algo teu na caixa de correio ou de te ver postado à minha porta, trazendo respostas ou mesmo só um silêncio, que eu suponho que teu silêncio me possa dizer muitas coisas. Mas tu não vens.
E é engraçado que a tua ausência seja capaz de deixar-me assim, tão ausente de mim mesma, porque a verdade é que eu nem sei ao certo quem tu és. Quero dizer, eu sei de tua rotina de anos atrás, sei de teus talentos e de tuas formas, mas nada além. E não entendo porque me perco tanto te buscando. Saio de casa todos os dias pronta pra te encontrar em alguma esquina. Visito tua praça, teus bares. Não há, em qualquer lugar, qualquer vestígio de ti.
Fato que a nossa história é por demais incerta e cheia de lacunas. E eu só sei que existiu uma história porque me pareceu muito real o teu rosto corado, teu amontoado de idéias, teus elogios exagerados, tuas despedidas espirituosas em francês e tudo mais. Mas depois, teu sumiço, minhas súplicas e um vazio foi tudo o que ficou.
E eu procuro no vácuo por explicações para o teu atraso. Já enredei-me em mais de cem hipóteses, assumi erros, deslizes, acreditei em coincidências, em destino, formulei teorias de conspirações, te vi com medo, te vi com nojo, te vi com raiva. E não me canso.
Talvez tu tenhas morrido. Quem sabe?
Sabe, moço, eu fico procurando palavras para não repetir as tuas, estas que esqueceste sobre o criado-mudo no dia em que resolveste partir, as últimas letras de ti que me ficaram e que parecem resumir minhas sensações sobre a tua chegada e sobre a tua partida. Bem sei que falavas ao acaso ou talvez sobre uma outra moça, de olhos mais verdes que os meus, mas me vejo nas entrelinhas e gosto de pensar que há mesmo um pouco de mim nas tuas angústias, naquelas angústias de quinta-feira, ao menos.
Fato que ficaram coisas demais por serem ditas, coisas demais...
O mundo é mosaico, moço, tu já me havias dito, somos ladrilhos errantes. Mas eu não tenho cores, te enganaste. Eu acho que sou a sobra de azulejo bege que só caberia em paisagem de areia. Mas todas as paisagens de areia estão completas e então eu fico por aqui... sendo sobra de azulejo bege... e só.
...
Um comentário:
Tu estás disposta a acabar comigo mesmo, não é senhorita?!(risos)Não cansa-se de me impressionar um só instante. É com êxtase que a vejo costurando ambíguidades e dualidades(vide"postado") - usando e abusando dos recursos linguísticos mais variados. Este texto tem aquele gostinho de um capuccino de canela que tomamos felizes(não-"satisfeitos"^^rs), enquanto assimilamos vagarosamente as essências da Índia. Tens gostinho de quero mais. Tens gostinho de quero sempre=)
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