segunda-feira, agosto 13, 2007

Pedaços

Eu mastigo. Um mastigar lento. Mastigo cem vezes antes de engolir. Mas não engulo, cuspo fora.

Passei meses tentando me acostumar. Hoje me dei conta de que já me acostumei há anos. Perdi pouco mais de uma década tentando me acostumar com o fato de que eu sempre estive acostumada. A constatação me deixou um tanto quanto louca. Fui fazer malas. Depois percebi que não tenho para onde ir. Há todo esse tal de mundo lá fora e eu não tenho para onde ir. Eu nunca deveria ter me acostumado.

Acontece que foi fácil. Cheguei e fui me largando pelos cômodos. Não hesitei. Deixei-me levar pela preguiça em algumas vezes. Em outras, me permiti um pouco de pressa. Fato que me acomodei entre domingos de ócio e semanas velozes. Rotina. E fui ficando por aqui. Escolhi a cor das paredes, mas me faltou dinheiro pra comprar a tinta porque investi tudo em parafernálias tecnológicas. Informação. Eu vejo, escuto. É estranho que nada faça sentido.

Paciência. Sempre tive essa facilidade para aceitar as coisas. Não as idéias, os fatos - ainda que, inconscientemente, eu tenha tomado algumas idéias como fatos e me enterrado em buracos dos quais ficou impossível sair. No começo me faltou ar. Depois eu simplesmente deixei de respirar. Havia sempre as lições que eu precisava aprender, os lugares que eu precisava conhecer, as pessoas com as quais eu precisava me relacionar. Nunca existiu qualquer vontade. Era tudo mecânico.

O tempo todo aquela sensação de não, não assim. Eu tentava ignorar. A idéia estúpida de que eu devia me acostumar. Exercitei minha tolerância. Sem perceber, transformei tudo em resignação. Foi inconsciente. Houve uma época em que até existiu uma revolta oculta. Eu praguejei, fiz planos malucos. Mas havia sempre uma aceitação latente, um "que seja" escondido atrás de cada "nem pensar" que me vinha.

O que eu quero dizer é que sei dessa fome. Sempre tive essa vontade urgente de fugir de todos os meus malditos princípios. Mas nunca tentei, nunca me permiti arroubos. Os outros doem em mim e é engraçado que eu não sinta a mínima vontade de doer um pouco neles também, vê-los mordendo os lábios, me rogando pragas, tendo calafrios ao escutar meu nome.

Existe essa eu que eu sou e que é o que eu preciso ser e existe o eu que eu quero ser, uma espécie de alter ego que eu sufoco. Acaba que me sinto presa dentro do meu próprio corpo.

Não há arrependimento, somente cansaço. Não reclamo. Desabafo. E me permito mentir. Minhas lágrimas não são tão salgadas quanto parecem, ou são ainda mais salgadas do que parecem. Não importa. Preciso continuar a mastigar.

3 comentários:

Anônimo disse...

Lembra-me a "normose", a doença de ser normal.

Curável, mas abrir os olhos para a luz dói até a alma.

Di' stante Enfim disse...

PARABÉNS!O teu texto exala um niilismo desconcertante!Ressalto o caráter confessional empregado na construção:)

Di' stante Enfim disse...

Hmm...Esqueci de mencionar:quando leio este texto, ouço os ecos de"Tabacaria"do genial Álvaro de Campos=]