Fragilidade. A gente se despedaça. Trabalho. Dinheiro. Sexo. Comida. Bebida. Cultura. Drogas. Vamos chegar aos trinta e contemplar com desânimo nossas caras arrebentadas no reflexo da vidraça de um quarto vazio. Perceber que não vivemos nada, ainda que tenhamos vivido tudo. De tudo, um pouco. Vamos sentir a urgência. Daí a gente vai se afundar em terapia. Vai ter a ilusão de que é possível compreender. Vai se perguntar porque não aceitou os conselhos da mãe, da avó, da tia. Vai sentir que devia ter se casado com aquele cara, aceitado aquele emprego, comprado aquele apartamento. A gente, aos trinta, sem marido, sem filhos, sem casa própria. Fazendo exatamente as mesmas coisas que fazíamos quando tínhamos vinte. E nossos dias vão durar menos da metade do tempo que duram agora. Vai doer. A gente vai acender velas, queimar incensos, entoar mantras. A gente vai fazer acumpuntura e cromoterapia. Daí a gente vai perceber que é um pouco tarde pra se lamentar e vai gargalhar histericamente. A gente vai engolir a rotina, como sempre engoliu. E continuar escrevendo cartas que nunca vão ser enviadas. Continuar se enfurecendo no trânsito. Continuar nas dietas malucas pra perder peso. Continuar fazendo palavras cruzadas no banheiro. E a gente vai pro bar, como sempre foi. E a gente bebe. E a gente esquece. Como se o hoje fosse ontem. Como se não importasse o fato de que vai haver amanhã. E então a gente var deixar a nossa solidão gritar seus desesperos e vai vomitar pra acabar com a tontura e poder dormir. Os mesmos olhos borrados de todas as manhãs. Como sempre foi.
Um comentário:
eu acho.
e não sei se tem algo além, nem se queria q fosse de outro jeito, ainda num cheguei lá.
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