Era Baco o apelido. Era Baco, obviamente, pelo óbvio. E é nisso que dá viver em rodas de intelectuais: ao invés de "Bebum" ou "Caninha", acaba sendo "Baco"...
No dia em que Baco morreu os amigos todos se reuniram, após o enterro, num desses bares em que costumavam ir às sextas-feiras. A sua morte não havia sido lá uma grande surpresa, há alguns meses o médico havia diagnosticado a cirrose e quando Baco contou sobre a doença aos amigos, naquele mesmo bar, fez-se apenas um silêncio pesaroso seguido por um "desce mais uma" que Baco gritou ao garçom. E riram, riram todos, que era tudo o que podiam fazer.
Era certo, desde muito antes do diagnóstico, que Baco morreria de cirrose ou de qualquer outra complicação provocada pelo álcool ou por algum dos muitos péssimos hábitos de sua vida totalmente desregrada. Era certo também que morreria cedo, "trinta e poucos" - não passaria disso. E era certo, ainda, que faria falta aos amigos nos botecos; que eles, os botecos, não seriam mais os mesmos sem o sorriso e a alegria de Baco e que eles, os amigos, também não seriam mais os mesmos quando não pudessem mais ouvir Baco falando sobre os pequenos e grandes prazeres de sua vida mundana enquanto fazia círculos com a fumaça do cigarro...
E ficaram num daqueles bares todos os amigos de Baco no dia de sua morte, relembrando méritos e causos, rindo de todas as maluquices e afetos que ele havia se permitido. E não houve tanta tristeza. Baco não se foi infeliz, foi como se apagasse a luz. Morreu com um sorriso largo estampado no rosto e um copo de vinho na mão, numa quarta-feira, às nove da manhã, ouvindo uma canção inédita de Johnny Cash, depois de ler um dos livros de Bukowski.
Não se deu ao desgaste de envelhecer, com ou sem dignidade. E não teve tempo suficiente para se arrepender de todos os tragos que deu, de toda a fumaça que engoliu. Mesmo que tivesse, Baco não o faria, nunca havia se importado com as excessivas regras dos bons costumes, acreditava que se tinha saúde e dinheiro era para que pudesse gastá-los. Se chegasse aos sessenta seria um velho doido e sereno, alheio às limitações do tempo. Mas não chegou. Morreu, numa manhã de quarta-feira. Sorrindo, sem dúvidas. Feliz, provavelmente.
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