Eles chegaram numa noite fria de inverno. Eram cinco. Se instalaram na calçada em frente ao prédio, do outro lado da rua, uns papelões e cobertas, e dormiram. Achei que era só por aquela noite, mas eles foram ficando. Passavam o dia todo sentados na calçada. Nunca os vi pedindo esmolas ou algo do gênero. Um deles, o Negão, saía todos os dias no fim da tarde e só retornava de madrugada. Acho que o Negão trabalhava porque ele trazia comida sempre que voltava e vai ver era por isso que eles nunca pediam esmolas.
Um noite, quando o Negão não estava, veio uma viatura e os caras deram geral em todos. Reviraram as coisas deles, destruíram toda a comida, chamaram a Dona Tide de "velha escrota", bateram no Jonas. O Jonas era deficiente mental. Quando o Negão voltou do trabalho, a Dona Tide sussurrou qualquer coisa no ouvido dele. O Jonas, sentado no chão, de costas pra parede, balançando o corpo pra frente e pra trás. O Negão ficou puto. Eram três da manhã. Ele gritou uns desaforos, jogou tudo no vento. Disse que não agüentava mais essa vida e que os canas eram uns filhos das putas. A vizinhança toda do prédio saiu na janela pra ver.
Dias depois estacionou uma van branca. Desceram da van uns três caras e disseram pro Negão alguma coisa que eu não ouvi. Ele fazia que não com a cabeça. Nesse dia, levaram o Rolha. Disseram que o Rolha era de menor e que não podia ficar ali. Queriam levar todos, mas foi só o Rolha, que os outros se negaram. Foi o que eu soube. Mandaram, de qualquer forma, que eles saíssem de lá. Aí eles desapareceram por uns dias. Depois voltaram, numa outra noite fria. Dessa vez eram quatro. Os mesmos papelões e cobertas, continuaram dormindo por ali.
Um outro deles, uma moça, a Sandra, passava o dia todo desenhando, não falava com ninguém. Não lembro exatamente quando, a Sandra começou a sair junto com o Negão no fim da tarde. A Dona Tide ficava com o Jonas na rua durante toda a noite, choramingando, contando mazelas pro menino que não entendia nada. Um dia, o Negão voltou sem a Sandra. A Dona Tide chorou. Acabou que daí em diante passou a ser somente ela, o Jonas e o Negão, que ainda saía todas as noites pra trabalhar.
Ontem de manhã, vi pela janela um corpo coberto com jornal. Bem ali, no lugar onde os três costumavam dormir. Havia sangue ao redor. Um monte de carros da polícia e um do IML. Nenhum dos três estava lá. Por causa do jornal, não deu pra saber qual deles havia morrido, não deu nem pra saber se era mesmo um deles, na verdade. Fato que nem Dona Tide, nem Jonas e nem o Negão apareceram mais por essas bandas. Hoje ouvi o rapaz da farmácia comentando que isso era bom, que quando eles estavam ali espantavam os clientes. Ele disse que acha que quem morreu foi o Jonas e Dona Tide e o Negão devem ter ido morar num abrigo e que isso seria muito melhor pra eles, sem dúvidas, pobres coitados.
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