Enquanto estou aqui escrevendo, meu gato dorme em meu colo, alheio a todos os problemas da humanidade.
Pra ele, não importa qual é o valor do salário dos senhores do Congresso, qual foi o político corrupto que ganhou a eleição, qual foi o time de futebol que comprou a vitória no campeonato, quais foram os filmes indicados ao Oscar, qual personagem vazio da novela vai morrer na semana que vem, qual dos participantes imbecis vai ganhar o Big Brother, quais são as últimas tendências idiotas da moda ou qual é a laranja mais madura do pé.
Ele não sabe o que é lobby e não entende a palavra "alienação".
Ele não está nem aí para o tráfico de drogas, de mulheres e de crianças, para os altos índices de criminalidade, para a super lotação dos presídios, para o desmatamento da Mata Atlântica, para as epidemias de dengue, para a alta do dólar, para a queda da bolsa de valores, para o preço abusivo da gasolina, para a crise na Aviação Civil Brasileira, para o calor insuportável na Itália, para a revolta que gerou a proibição do fumo na França, para os terremotos na Indonésia, para a doença de Fidel Castro e de Cuba ou para as praias de nudismo em Cartagena e San Andreas.
Ele não tem medo de morrer de bala perdida ou de passar vergonha numa conversa sobre desenvolvimento sustentável ou outros assuntos polêmicos nas rodinhas de intelectuais da alta sociedade.
A propósito, ainda que o buraco na camada de ozônio e o aquecimento global o afetem diretamente, ele não sabe disso. Ele não sabe o que é camada de ozônio. Mesmo que soubesse, ele não vai mesmo viver tempo suficiente pra se sentir prejudicado pelo aquecimento global. Então, ele não sofre. Não se preocupa com o futuro de seus filhos e netos. E, além disso, ele pode dormir com a consciência tranquila porque não é ele que está destruindo essa merda de planeta.
O mundo dele é monocromático e bidimensional.
Ele não sente raiva porque o Bush, ao invés do Al Gore ou do Kerry, é o presidente dos Estados Unidos. Ele não se choca ao saber que ainda existe escravidão no Brasil. Ele não fica triste quando vê uma criança mendigando na rua. Ele não se sensibiliza pelo fato de que centenas de nordestinos, somalianos, iraquianos, israelenses e palestinos morrem todos os dias por culpa da seca, da fome e das guerras. Gatos não fazem guerras. A comida dele é religiosamente despejada por mim em um potinho vermelho três vezes ao dia. A água que ele bebe está sempre fresquinha dentro de outro potinho, amarelo. Sou eu que tenho que trabalhar pra comprar a comida, a água e os potinhos, então ele também não se preocupa com seus horários de sono, com a roupa que vai usar no dia seguinte, com o trânsito caótico ou com o mal humor do chefe, nem fica deprimido, estressado e ansioso pelas próximas férias.
Quando se sente entediado ele corre pela casa brincando com bolinhas de papel.
Pra ele, a taxa de juros aplicada no Brasil não faz diferença nenhuma porque ele não fez um empréstimo no banco recentemente e nem deve as calças pra administradora do cartão de crédito. Ele sequer sabe o que é um banco ou um cartão de crédito. Ele sequer usa calças.
Ele não precisa de internet ou de televisão para ser feliz, não paga aluguel e não usa o telefone.
Ele não se preocupa em entender que lance é esse de infinitude do Universo, não se interessa em descobrir o que vem depois da morte, quantas listras tem uma zebra ou porque os kamikazes usavam capacete. Ele não fica tentando desvendar todos os mistérios do mundo e nem se mete em discussões fervorosas sobre o assunto.
Ele não precisou aprender o alfabeto ocidental e não vai fazer faculdade.
Ele não se deprime e não precisa fazer dieta quando fica gordo porque não existe uma mídia manipuladora jogando na cara dele que os gatos devem ser esbeltos. Ele nunca foi rejeitado pela gata mais linda da escola, nunca teve que conversar sobre sexo com o seu pai, nunca descobriu que estava sendo traído e sentiu vontade de matar a esposa, nunca levou bronca por chegar bêbado em casa e nunca brochou. Ele não chora no cinema, não se emociona com um poema triste e nunca teceu comentários acerca da falta que faz um baixo numa banda de rock'n roll.
Ele não tem preconceitos, problemas no fígado ou vergonha de falar em público.
Ele não precisa nem limpar as cagadas que faz. Sequer puxar a descarga.
Agora me dizem que nós, os homens, que trabalhamos para pagar pela comida, pela água e pelos potinhos para os gatos, somos seres evoluídos. Para o inferno com essa droga de evolução. Eu queria ser um gato.
Nenhum comentário:
Postar um comentário