quinta-feira, junho 07, 2007

Fragmentos de cadernetas I

Parado, espera. Ela ainda está longe e vem andando devagar. Quando ela passar, você pega. Hoje já perdeu o emprego porque mandou o chefe à puta que o pariu. Recebeu o tal manifesto, assinado por todos, todos, todos os vizinhos, que eles não agüentam mais o barulho que vem do seu apartamento e a fumaça de cigarro que se espalha pelo hall do prédio quando você, bêbado, perde as chaves de casa. Hoje já tomou chuva e se atrasou pro almoço com a mãe. Três horas e meia parado no engarrafamento, um Ford Ka na sua frente e crianças mal educadas grudadas no vidro fazendo caretas. Sua gasolina acabou no meio da Marginal Pinheiros. Enxaqueca, palavra horrível. Sua vida é um maldito filme de Woody Allen. Ela logo chega. Seja rápido que ela deve acelerar o passo quando passar por você. Preste atenção no som das sirenes do Corpo de Bombeiros. E no andaime que aquela construtora falida colocou no seu caminho. Preste atenção nos outdoors iluminados da Paulista. E no vão do Masp. Preste atenção na sujeira do seu umbigo. E na careca do caixa da padaria. Não procure por ela, ela virá até você. Preste atenção nessa seqüência de clichês que foi o a droga do seu dia. Nem sempre é assim. A inspiração está em cada peido que aquele guarda de trânsito dá e que ninguém escuta porque a cidade é barulhenta demais. Não deixe, não deixe, não deixe que ela escorregue das suas mãos.

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