sexta-feira, julho 01, 2011

Exortação aos Crocodilos

Ele, de novo, e real. Não houve, contudo, qualquer intenção. Puro acaso. Não fosse a briga de dois senhores aleatórios, interesses escusos, a política, o problema dos fumilcutores e minha paciência para discursos intermináveis, talvez nunca nos tivéssemos reencontrado.

Como se as ausências não tivessem estado presentes durante todos esses anos, comentamos sobre o sol e sobre a chuva e sobre a vida nos fins de mundo em que vivemos.

Essas cidades aqui são só ladeiras. Acordo todos os dias às seis, desço uma ladeira a caminho do trabalho. Trabalho. Subo a mesma ladeira a caminho desse lugar, quatro paredes e pouco espaço, que alguns chamam de "minha casa" e eu chamo de "solitária" (ainda que eu tenha a vantagem de ver, pela única janela do único cômodo, o sol nascendo quadrado nesses dias frios).

Pra ele, a culpa que lhe atribuem por todos os problemas do mundo, um certo tédio escondido, e a moça, tímida, disfarçada em uma entrelinha.

Naquele momento, de fato, nada importava. O modo como ele me disse que era bom me ver, a mocinha do almoxarifado da Assembléia nos emprestando uma caneta, minhas mãos trêmulas anotando no canto de uma bula de remédio um número de telefone, um vice-versa em um pedaço de papel amassado.

E, depois, a promessa de que ele ligaria, cumprida, dessa vez. E notícias chegando pelo correio mais tarde, falando do tempo que a gente modela, dos tropeços da vida e dos vinhos argentinos e chilenos que salvam outonos.

Demorei a responder e, faz já um mês, a tréplica ainda não veio. Me acalma, contudo, a quase certeza de que as correspondências não irão mais se extraviar. Se encerra um ciclo. Pode ser que nada mais me venha, mas é boa a sensação de dar fim a uma agonia e de perceber que o real é melhor do que o imaginado.

De fato, nunca houve dor. Apenas aquilo que sempre vinha ao longo do tempo, saudades de eloquências informais, de vida inteligente, da "medicina indicada". Meu talento para dramatizar supera qualquer capacidade de criação que, dizem por aí, eu tenha ou possa ter.

Foi, até agora, apenas isso. Dramatização. O que será, daqui para frente... Incógnita irrelevante no meio de tantas outras.

Muito estranhamente, torço para que Antonio Lobo Antunes morra logo.

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Um comentário:

cleiner micceno disse...

gostei muito, gostei do desfecho, tem uma coisa cotidiana e viva nos textos q gosto demais